{"id":18630,"date":"2022-09-19T10:43:15","date_gmt":"2022-09-19T13:43:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=18630"},"modified":"2022-09-19T10:43:15","modified_gmt":"2022-09-19T13:43:15","slug":"readensamento-produtivo-o-que-e-porque-e-essencial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=18630","title":{"rendered":"Readensamento produtivo: o que \u00e9, porque \u00e9 essencial"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Artigo de Antonio Corr\u00eaa de Lacerda* e Cristina Fr\u00f3es de Borja Reis* publicado no portal <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/readensamento-produtivo-o-que-e-porque-e-essencial\/\">Outras Palavras<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Conectar ind\u00fastrias \u00e0s diversas atividades econ\u00f4micas do pa\u00eds, inclusive a agropecu\u00e1ria, \u00e9 essencial para superar a reprimariza\u00e7\u00e3o. Isso exigir\u00e1 infraestrutura, inova\u00e7\u00e3o, rela\u00e7\u00f5es exteriores altivas e novo pacto social para o desenvolvimento<\/em><\/p>\n<p>Tendo recentemente participado de uma mesa redonda sobre o readensamento produtivo no Brasil, decidimos publicar conjuntamente algumas considera\u00e7\u00f5es sobre a ind\u00fastria brasileira, considerando a possibilidade das urnas afirmarem um novo projeto de desenvolvimento.<\/p>\n<p>A hora \u00e9 agora, sempre. Poder\u00edamos girar o di\u00e1logo em torno da ideia de que passou da hora, ou de que falta muito para que o readensamento produtivo se torne realidade. Mas preferimos nos posicionar a favor do presente e, propositivamente, lembrar do que \u00e9 preciso fazer neste momento para o readensamento produtivo acontecer.<\/p>\n<p><strong>Resumidas defini\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>\nPrimeiramente vamos alinhar as defini\u00e7\u00f5es. Por densidade produtiva se entende o grau de conectividade entre os diversos segmentos de atividade econ\u00f4mica, por meio de rela\u00e7\u00f5es de compras e vendas de insumos, mat\u00e9rias-primas, partes, componentes \u2013 mas tamb\u00e9m de tecnologias, atividades e tarefas das cadeias de valor. Portanto, todas estas redes entre agentes atuantes dos processos produtivos, que a gente pode pensar n\u00e3o somente em cadeia, mas na sua circularidade (incluindo o p\u00f3s-consumo, com reuso e reciclagem) \u2013 que conformam o que chamamos de tecido industrial.<\/p>\n<p>Logo, se estamos falando em readensamento produtivo \u00e9 porque pressupomos que perdemos densidade produtiva e que sua retomada seria ben\u00e9fica ao pa\u00eds. Afinal, diversos estudos apontam para desindustrializa\u00e7\u00e3o no Brasil, com perda de rela\u00e7\u00f5es inter e intra-setoriais e crescente porosidades em etapas e atividades dos processos produtivos. Tais aus\u00eancias v\u00e3o rompendo as correias transmissoras, ou melhor, transferindo para o exterior os impulsos din\u00e2micos do investimento, renda e emprego.<\/p>\n<p>No caso brasileiro, em particular, as \u201cporosidades\u201d s\u00e3o mais frequentes e profundas nas cadeias produtivas de bens mais elaborados em termos de conhecimento e tecnologia. Neste ponto a gente retoma a discuss\u00e3o sobre a import\u00e2ncia da ind\u00fastria para o desenvolvimento econ\u00f4mico, que corresponde a uma disputa de \u201cnarrativa\u201d, que hoje no Brasil adquiriu contornos bem toscos: a defesa do agroneg\u00f3cio como motor do desenvolvimento nacional.<\/p>\n<p>Tal disputa remete ao debate fundador da Economia Pol\u00edtica sobre vantagens comparativas. No modelo padr\u00e3o de com\u00e9rcio Heckscher-Ohlin-Samuelson, os pa\u00edses devem se especializar na produ\u00e7\u00e3o de bens com intensidade relativa de uso de um fator \u2013 capital ou trabalho \u2013 em que tenha abund\u00e2ncia relativa no territ\u00f3rio em rela\u00e7\u00e3o aos demais. Isso possibilitaria a converg\u00eancia dos pre\u00e7os relativos dos bens e das remunera\u00e7\u00f5es do trabalho e capital entre pa\u00edses.<\/p>\n<p>Mas para que esses resultados se realizem, contam com pressupostos como concorr\u00eancia perfeita, imobilidade dos fatores entre pa\u00edses, tecnologia igualmente dispon\u00edvel para todos, entre outros. Ora, considerando que essas premissas n\u00e3o valem no mundo real, e desde uma perspectiva mais estrutural, n\u00e3o h\u00e1 como os resultados dessa aposta em supostas vantagens comparativas prevalecerem. Cai por terra, portanto, a ideia de que pelo Brasil ser rico em terra e em recursos naturais o desenvolvimento do agroneg\u00f3cio e a reprimariza\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es significariam um padr\u00e3o produtivo mais eficiente e desej\u00e1vel. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o significa que seja indesej\u00e1vel.<\/p>\n<p>O essencial a se analisar \u00e9 aqualidade destas atividades, entendendo-se suas consequ\u00eancias sobre o conflito distributivo e sobre a natureza, para que possibilitem o sentido do desenvolvimento que o povo sonha. Se tomarmos como refer\u00eancia a Agenda 2030 da ONU (que ainda que tenha inconsist\u00eancias e n\u00e3o espelhe exatamente as necessidades e anseios brasileiros, constitui-se em leg\u00edtimo e arduamente consensuado acordo internacional), vamos enquanto sociedade em busca de melhorar as bases materiais da vida com sustentabilidade e inclus\u00e3o. Ou seja, buscar uma densidade produtiva que zele pelo meio ambiente e diminua as desigualdades de poder e riqueza entre grupos de pessoas e classes sociais.<\/p>\n<p>Ou seja, o desafio \u00e9 encontrar uma rota para a din\u00e2mica econ\u00f4mica que gere emprego e renda de qualidade, eleve o padr\u00e3o geral de renda do pa\u00eds, seja redistributiva e justa, trazendo equidade de g\u00eanero, \u00e9tnico-racial e de classe. Necessariamente, a partir de um referencial te\u00f3rico novo-estruturalista, isto significa readensar o tecido produtivo, engendrando efeitos multiplicadores e de encadeamento.<\/p>\n<p>Pode-se, sim, mobilizar o agroneg\u00f3cio, mas limitando-o a uma atua\u00e7\u00e3o engajada, que transfira tecnologia e conhecimento para a produ\u00e7\u00e3o familiar no campo, que seja fortemente enquadrado na regula\u00e7\u00e3o ambiental, com condena\u00e7\u00e3o exemplar de crimes como queimadas e viol\u00eancias. Ao mesmo tempo, no campo industrial, haveria de se promover a concorr\u00eancia nos mercados, gerar incentivos para que n\u00e3o fossem praticadas taxas de lucro abnormais, combatesse todo tipo de comportamento primitivo de acumula\u00e7\u00e3o de capital por parte de empres\u00e1rios que se dizem nacionalistas.<\/p>\n<p><strong>Pacto social e outros condicionantes<\/strong><br \/>\nConscientes disso, diversas entidades e associa\u00e7\u00f5es produtivas t\u00eam preparado agendas industriais para influenciar os planos dos candidatos \u00e0 presid\u00eancia, governos estaduais, congresso nacional.<\/p>\n<p>Essas iniciativas merit\u00f3rias podem ir al\u00e9m ao firmar pactos pela ind\u00fastria, apoiado no setor produtivo, no setor p\u00fablico, no setor educacional e nas entidades sociais, especialmente as trabalhistas. Em um momento t\u00e3o agudo de crise, com a fome e a mis\u00e9ria assolando o Brasil, nos unir pode parecer ut\u00f3pico, mas indubitavelmente seria o mais racional. E n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, como mostram os esfor\u00e7os do F\u00f3rum da Ind\u00fastria da Ag\u00eancia de Desenvolvimento Econ\u00f4mico do Grande ABC paulista.<\/p>\n<p>Este pacto significa concordar sobre o sentido do readensamento produtivo: a inclus\u00e3o e a sustentabilidade. De forma que as pol\u00edticas p\u00fablicas e estrat\u00e9gias empresariais, trabalhistas e educacionais sejam vencer os grandes desafios do desenvolvimento, ao inv\u00e9s de alavancar a ind\u00fastria per se. Ou seja, a ind\u00fastria seria um meio, n\u00e3o um fim. A partir deste entendimento, alguns condicionantes essenciais para o readensamento produtivo ser constru\u00eddo seriam financiamento, infraestrutura, fortalecimento do Sistema Nacional de CT&amp;I (Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o), regime macroecon\u00f4mico favor\u00e1vel \u00e0 demanda efetiva, rela\u00e7\u00f5es externas possibilitadoras de uma integra\u00e7\u00e3o financeira e produtiva mais altiva e soberana, reformas estruturais.<\/p>\n<p>Quanto a estes tocantes, tamb\u00e9m \u00e9 preciso atentar para suas qualidades. No caso do financiamento, expandir o cr\u00e9dito deve ser feito com foco nos objetivos do desenvolvimento, regula\u00e7\u00e3o, governan\u00e7a e compliance, em conson\u00e2ncia com a Agenda 2030. Nesse sentido, vale conferir o Plano ABDE 2030, que estabelece cinco miss\u00f5es para o desenvolvimento a partir da atua\u00e7\u00e3o do BNDES, Finep, bancos regionais, cooperativas de cr\u00e9dito e ag\u00eancias de fomento etc.<\/p>\n<p>Quando se defende investir em infraestrutura, n\u00e3o seria para viabilizar corredores de exporta\u00e7\u00e3o ou privatiza\u00e7\u00f5es para benef\u00edcio de grupos de influ\u00eancia nacional e internacionais poderosos, como no passado recente, mas para promover uma sociedade carbono-zero e ao mesmo tempo fomentar a din\u00e2mica e a concorr\u00eancia dos mercados com inclus\u00e3o. Seria para ampliar e melhorar redes de energia, moradia, transporte, telecomunica\u00e7\u00f5es e inform\u00e1tica, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, esporte, lazer e cultura.<\/p>\n<p>Embora elevar o investimento produtivo seja o nosso desafio hist\u00f3rico, nesta conjuntura, a ind\u00fastria est\u00e1 lidando tamb\u00e9m com os problemas de capacidade ociosa e de rupturas nas cadeias globais de valor (CGV). O primeiro requer que a demanda seja retomada, via gastos do governo, pois o consumo e o investimento n\u00e3o podem reagir sem incentivos. As exporta\u00e7\u00f5es, por serem concentradas em commodities do agroneg\u00f3cio e da ind\u00fastria extrativa mineral, n\u00e3o tem se mostrado uma solu\u00e7\u00e3o. Afinal, ultimamente essas exporta\u00e7\u00f5es vem crescendo sem puxar a economia. Ao contr\u00e1rio, est\u00e3o causando mais destrui\u00e7\u00e3o ambiental, fome e infla\u00e7\u00e3o. Assim, \u00e9 crucial um regime macroecon\u00f4mico favor\u00e1vel \u00e0 demanda efetiva.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio ter a coragem de se corrigir um grande erro: o teto dos gastos. Precisamos que as pol\u00edticas macro e fiscais levem a taxas de juros e c\u00e2mbio consistentes com o readensamento produtivo. Juros que n\u00e3o sejam t\u00e3o pesados para o capital de giro das micro, pequenas e m\u00e9dias empresas e para o consumo de baixa renda. E c\u00e2mbio competitivo para a pr\u00f3pria retomada da din\u00e2mica industrial, sem ocasionar infla\u00e7\u00e3o e socializa\u00e7\u00e3o das perdas.<\/p>\n<p>Ora, resolver a quest\u00e3o das CGV nos leva a uma tautologia, pois as rupturas se devem, no plano interno, \u00e0s tais porosidades do tecido produtivo que queremos solucionar com o readensamento produtivo. Mas, do ponto de vista externo, significa tamb\u00e9m pensar em sa\u00eddas estrat\u00e9gicas ao fato de que suas governan\u00e7as, marcadamente hier\u00e1rquicas e dominadas por poucas empresas transnacionais e por Estados mais poderosos, n\u00e3o colocam o Brasil numa posi\u00e7\u00e3o complexa das cadeias de valor. Ao contr\u00e1rio, tem sido dependente e, sobretudo desde o impeachment, decadente.<\/p>\n<p>Assim, as nossas rela\u00e7\u00f5es exteriores devem promover uma integra\u00e7\u00e3o produtiva e financeira do Brasil mais altiva e ativa. Isso significa atuar estrategicamente tanto nas alian\u00e7as com o Norte global, quanto com o Sul. Uma atua\u00e7\u00e3o defensora da multipolaridade, dos direitos humanos, da natureza e da democracia nos f\u00f3runs internacionais, bem diferente do que o atual governo vem fazendo \u2013 o que s\u00f3 deteriora nossas condi\u00e7\u00f5es de sair da crise.<\/p>\n<p>E a formula\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias pol\u00edticas, econ\u00f4micas, tecnol\u00f3gicas e sociais mais inteligentes precisa de uma educa\u00e7\u00e3o emancipat\u00f3ria, desde o ensino b\u00e1sico at\u00e9 as universidades ou institui\u00e7\u00f5es que geram mais avan\u00e7adas tecnologias que temos no Brasil (e ainda temos). Faz-se mister um sistema nacional de CT&amp;I com vis\u00e3o mais longo-prazista, no sentido do desenvolvimento inclusivo e sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ressaltamos a m\u00e1xima de que sem educa\u00e7\u00e3o e CT&amp;I, a sociedade pode percorrer perigosos caminhos anticivilizat\u00f3rios, como a corros\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas a partir da infiltra\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o, bandidagem e corrup\u00e7\u00e3o no Estado. Assim, devemos barrar o home-schooling, as censuras \u00e0 liberdade de express\u00e3o e de informa\u00e7\u00e3o, a prolifera\u00e7\u00e3o de armas, a viol\u00eancia, a barb\u00e1rie. Urge refor\u00e7ar, por outro lado, a cultura cidad\u00e3 e de paz, zeladora do Estado e do Direito.<\/p>\n<p><strong><em>*Antonio Correia de Lacerda \u00e9 professor doutor e coordenador do Programa de P\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o em Economia Pol\u00edtica da PUCSP e presidente do Conselho Federal de Economia &#8211; Cofecon.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>*Cristina Fr\u00f3es de Borja Reis \u00e9 professora da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de Economia Pol\u00edtica Mundial da UFABC e diretora da Ag\u00eancia de Inova\u00e7\u00e3o da UFABC.<\/em><\/strong><\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Antonio Corr\u00eaa de Lacerda* e Cristina Fr\u00f3es de Borja Reis* publicado no portal Outras Palavras Conectar ind\u00fastrias \u00e0s diversas atividades econ\u00f4micas do pa\u00eds, inclusive a agropecu\u00e1ria, \u00e9 essencial para superar a reprimariza\u00e7\u00e3o. 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