{"id":17801,"date":"2022-06-10T16:07:35","date_gmt":"2022-06-10T19:07:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=17801"},"modified":"2022-06-10T16:07:35","modified_gmt":"2022-06-10T19:07:35","slug":"novo-livro-de-luis-nassif-debate-a-imprensa-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=17801","title":{"rendered":"Novo livro de Luis Nassif debate a imprensa brasileira"},"content":{"rendered":"<p>Por Fausto Oliveira<br \/>\nJornalista pela UFRJ, escritor, editor, redator.<\/p>\n<p>O mais recente livro do jornalista Luis Nassif, O Caso Veja, foi lan\u00e7ado em um evento em S\u00e3o Paulo no dia 4 de junho. O lan\u00e7amento reuniu uma quantidade significativa de leitores, admiradores e parceiros deste que pode ser considerado um dos maiores jornalistas do Brasil contempor\u00e2neo. Duplamente premiado pelo Cofecon como Destaque Econ\u00f4mico do Ano &#8211; Modalidade M\u00eddia (2020 e 2021), o Jornal GGN, comandado por Luis Nassif, \u00e9 hoje uma das mais relevantes fontes de informa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica para a sociedade brasileira.<\/p>\n<p><em>O Caso Veja<\/em> foi lan\u00e7ado em 2021, pela Kotter Editorial. Nele, Luis Nassif narra o que classifica como &#8220;o naufr\u00e1gio do jornalismo brasileiro&#8221;. De fato, esta express\u00e3o \u00e9 o subt\u00edtulo do livro. N\u00e3o \u00e9 surpresa para ningu\u00e9m que a imprensa brasileira, desde h\u00e1 alguns anos (Nassif marca o ponto de aprofundamento do processo no ano de 2005) vem politizando sua atua\u00e7\u00e3o. Em seu novo livro, o experiente jornalista de economia conta como ele pr\u00f3prio foi v\u00edtima de um dos primeiros grandes ataques \u00e0 reputa\u00e7\u00e3o pessoal que, anos mais tarde, viria a contribuir para tornar comuns no Brasil as not\u00edcias falsas e a desinforma\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>Imprensa e sociedade<\/strong><\/p>\n<p>O jornalista de origem h\u00fangara Joseph Pulitzer viveu a maior parte de sua vida nos Estados Unidos, entre a segunda metade do s\u00e9culo XIX e o in\u00edcio do s\u00e9culo XX. \u00c9 dele a frase que, hoje, soa lapidar para um Brasil que se acostumou \u00e0 pr\u00e1tica de mau jornalismo e \u00e0 difus\u00e3o maci\u00e7a de desinforma\u00e7\u00e3o. &#8220;Com o tempo, uma imprensa c\u00ednica, mercen\u00e1ria, demag\u00f3gica e corrupta formar\u00e1 um p\u00fablico t\u00e3o vil como ela mesma&#8221;, disse o profissional da imprensa cujo nome \u00e9 hoje usado na principal premia\u00e7\u00e3o a jornalistas no mundo, o Pr\u00eamio Pulitzer.<\/p>\n<p>Em <em>O Caso Veja<\/em>, Luis Nassif orienta o leitor em uma mem\u00f3ria recente, mas muito dispersa e de entendimento n\u00e3o imediato, tal sua fragmenta\u00e7\u00e3o e o esfor\u00e7o para encobri-la. Ele se concentra na forma como a revista Veja, historicamente o maior seman\u00e1rio publicado no Brasil, deturpou as pr\u00e1ticas de jornalismo ao ponto em que se tornou, em suas pr\u00f3prias palavras, um ve\u00edculo de &#8220;antijornalismo&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o que a revista da editora Abril tenha sido o \u00fanico ve\u00edculo da imprensa comercial a deteriorar sua pr\u00e1tica jornal\u00edstica ao longo dos \u00faltimos anos. Nassif aponta, no entanto, que ela exerceu um protagonismo na forma\u00e7\u00e3o e alimenta\u00e7\u00e3o artificial de esc\u00e2ndalos e sensacionalismos, com os quais o clima pol\u00edtico na sociedade brasileira se contaminou at\u00e9 o momento de agora.<\/p>\n<p>O livro relata os casos que Nassif julga mais escabrosos e exemplares do &#8220;antijornalismo&#8221; que ele critica. Um deles foi a not\u00e1vel capa &#8220;Eles sabiam de tudo&#8221;, em que Veja estampou fotos dramaticamente manipuladas de Dilma Rousseff e Luis In\u00e1cio Lula da Silva, relacionando-os \u00e0s den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o feitas pelos operadores da Lava Jato, faltando apenas dias para a elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2014. Naquela ocasi\u00e3o, a mesma Veja havia feito uma capa explicitamente positiva que mostrava A\u00e9cio Neves sorridente, abrindo o palet\u00f3 e mostrando, sobre uma camiseta amarela, o bot\u00e3o &#8220;confirma&#8221; usado na m\u00e1quina de voto eletr\u00f4nico no Brasil.<\/p>\n<p>Foi uma evidente tomada de posi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 discut\u00edvel mas decerto n\u00e3o configura um crime. Por\u00e9m, Nassif relembra como, dias ap\u00f3s o pleito presidencial, ficou claro que aquela den\u00fancia de Veja trouxe era, simplesmente, falsa. Apenas depois das urnas fechadas \u00e9 que outro ve\u00edculo, o Valor Econ\u00f4mico, publicou o desmentido do advogado de Alberto Yussef, afirmando categoricamente que seu cliente n\u00e3o havia apontado responsabilidade da presidente que ent\u00e3o buscava a reelei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o apenas se configurou um caso de not\u00edcia falsa na capa do maior seman\u00e1rio em circula\u00e7\u00e3o no pa\u00eds como, tamb\u00e9m, aquela capa foi distribu\u00edda nas ruas como se fosse um panfleto eleitoral. &#8220;A publica\u00e7\u00e3o da revista veio acompanhada de um fort\u00edssimo esquema de distribui\u00e7\u00e3o de fac-s\u00edmiles da capa por todo o pa\u00eds&#8221;, conta o editor do Jornal GGN. O flagrante desvio \u00e9tico da empresa jornal\u00edstica respons\u00e1vel pela revista n\u00e3o foi suficiente, como se sabe, para mudar o resultado final da elei\u00e7\u00e3o. Mas, \u00e9 percept\u00edvel que contribuiu para criar o clima de exaspera\u00e7\u00e3o geral no qual Dilma Rousseff iniciou seu segundo mandato.<\/p>\n<p>Bastar\u00e1 lembrar os eventos subsequentes para concluir sem medo de errar que sim, a revista Veja e o restante da imprensa brasileira foram atores crucialmente importantes na tomada do poder por um impeachment controverso (para dizer o m\u00ednimo) e na elei\u00e7\u00e3o do governo mais retr\u00f3grado e representativo dos interesses de mercado da hist\u00f3ria nacional recente.<\/p>\n<p><strong>A economia da imprensa<\/strong><\/p>\n<p>Luis Nassif \u00e9 um jornalista de economia. Ali est\u00e1 sua trajet\u00f3ria e sua grande contribui\u00e7\u00e3o ao pa\u00eds. O ataque que sofreu por apontar a transforma\u00e7\u00e3o do jornalismo brasileiro em um sistema de difama\u00e7\u00e3o n\u00e3o se descola da evolu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de empresas que n\u00e3o se prepararam para uma profunda transi\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e de modelo.<\/p>\n<p>O neg\u00f3cio de m\u00eddia entrou no s\u00e9culo XXI em absoluta transforma\u00e7\u00e3o. Como se sabe, a digitaliza\u00e7\u00e3o das m\u00eddias foi apenas o primeiro passo, sendo seguido pelo surgimento de um sem fim de m\u00eddias alternativas e, depois, pelas redes sociais. Em paralelo, ve\u00edculos tradicionais que pertencem ao oligop\u00f3lio das comunica\u00e7\u00f5es definharam \u2014 em alguns casos continuam definhando \u2014 com o novo modelo de publicidade paga, todo ele voltado para as grandes plataformas digitais internacionais.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente a editora da revista Veja, cujo &#8220;antijornalismo&#8221; Nassif investigou e denunciou, aquela que chega a 2017 com a seguinte situa\u00e7\u00e3o: patrim\u00f4nio l\u00edquido negativo em quase R$ 716 milh\u00f5es, o que representava cerca de R$ 300 milh\u00f5es a menos em seu patrim\u00f4nio l\u00edquido relativamente ao ano anterior. O balan\u00e7o da Editora Abril naquele ano mostrava um preju\u00edzo operacional de R$ 164 milh\u00f5es. Acrescendo-se as despesas financeiras, a empresa chegava a um preju\u00edzo total de R$ 379 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>O argumento de Nassif em <em>O Caso Veja<\/em> relaciona a inadequa\u00e7\u00e3o de empresas como a Editora Abril para os novos tempos do neg\u00f3cio de m\u00eddia e sua op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por desinformar e difamar. Cronologicamente, h\u00e1 de fato uma coincid\u00eancia muito contundente: enquanto a remodela\u00e7\u00e3o da m\u00eddia mundial se acelera no in\u00edcio deste s\u00e9culo, a m\u00eddia brasileira adotou a partir do chamado &#8220;Mensal\u00e3o&#8221; o tom denuncista e escandalizante que s\u00f3 se refor\u00e7ou nos anos seguintes, com a opera\u00e7\u00e3o Lava Jato levando-a ao auge do &#8220;antijornalismo&#8221;. Parece ineg\u00e1vel que tudo o que veio depois leva as impress\u00f5es digitais destas m\u00e1s pr\u00e1ticas de comunica\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>A observa\u00e7\u00e3o do jornalista econ\u00f4mico \u00e9 de que a Editora Abril liderou este processo por meio de sua principal revista, importando a t\u00e1tica de Rupert Murdoch, o magnata dono da Fox News nos Estados Unidos. Mas, diferente daquele pa\u00eds, onde outras linhas de m\u00eddia concorrem e a sociedade se alimenta de uma diversidade de vis\u00f5es, Nassif nota que no Brasil toda a m\u00eddia comercial embarcou no projeto que Veja liderou. Faz sentido: todas as grandes empresas brasileiras de m\u00eddia estavam economicamente despreparadas para a transi\u00e7\u00e3o de modelo que a internet passou a lhes impor.<\/p>\n<p>E o que hoje temos no Brasil, com a normaliza\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas de difama\u00e7\u00e3o e mensagens de \u00f3dio, Luis Nassif identifica como uma consequ\u00eancia deste processo. A m\u00eddia brasileira se assumiu como uma esp\u00e9cie de partido pol\u00edtico, vocalizando o extremismo e o \u00f3dio que ela mesma alimentou, com a finalidade de garantir sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Ter\u00e1 o feiti\u00e7o virado contra o feiticeiro? \u00c9 uma pergunta que os pr\u00f3ximos anos (ou, quem sabe, meses) responder\u00e3o. Enquanto isso, o lan\u00e7amento de <em>O Caso Veja<\/em> e as muitas cr\u00edticas que v\u00eam sendo feitas h\u00e1 anos a este modelo de imprensa t\u00eam uma contribui\u00e7\u00e3o significativa a dar.<\/p>\n<p>Especificamente, o debate que conecta o comportamento da imprensa diante das transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas do mundo contempor\u00e2neo precisa ser estimulado. Por isso, justifica-se plenamente o reconhecimento do Cofecon ao trabalho de Luis Nassif, tanto por seu Jornal GGN como por seu novo livro sobre a deteriora\u00e7\u00e3o do jornalismo nacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fausto Oliveira Jornalista pela UFRJ, escritor, editor, redator. O mais recente livro do jornalista Luis Nassif, O Caso Veja, foi lan\u00e7ado em um evento em S\u00e3o Paulo no dia 4 de junho. 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