{"id":17315,"date":"2022-03-21T13:15:53","date_gmt":"2022-03-21T16:15:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=17315"},"modified":"2022-03-21T13:15:53","modified_gmt":"2022-03-21T16:15:53","slug":"guerra-na-ucrania-demonstra-que-neoliberalismo-nunca-desejou-mundo-harmonico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=17315","title":{"rendered":"Guerra na Ucr\u00e2nia demonstra que neoliberalismo nunca desejou mundo harm\u00f4nico"},"content":{"rendered":"<h2><strong>Guerra marca o fim do terraplanismo econ\u00f4mico<\/strong><\/h2>\n<p><b>Por Rubens R. Sawaya<\/b><\/p>\n<p>Foi nos anos 1990 que a ideologia da globaliza\u00e7\u00e3o ganhou seus propagandistas mais ferrenhos, na \u00e2nsia de demonstrar que o mundo agora se tornava um s\u00f3. O jornalista do New York Times, Thomas L. Friedman, com seu\u00a0<i>O mundo \u00e9 plano<\/i>\u00a0(2005), foi\u00a0<em>best-seller<\/em>. O editor-chefe do The Economist, John Micklethwait, ficou famoso com seu livro-propaganda\u00a0<i>A Future Perfect: the Challenge and Promise of Globalization<\/i>\u00a0(escrito em conjunto como Adrian Wooldridge) publicado em 2000.<\/p>\n<p>Advogavam que a liberdade individual seria a primazia desse novo mundo, sem fronteiras, sem controle centralizado (sem Estado opressor), apenas controlado pela l\u00f3gica do mercado livre, constitu\u00eddo por indiv\u00edduos livres que, agora, teriam a oportunidade de mostrar seu talento pessoal, em qualquer rinc\u00e3o do planeta. A produ\u00e7\u00e3o poderia se espalhar livremente por todas as partes. Este \u201cnovo mundo\u201d conjugava-se com a ideologia do empreendedorismo, hoje muito em moda no neoliberalismo, do\u00a0<i>Desenvolvimento como Liberdade<\/i>, de Amartya Sen, de 1999, baseada no individualismo.<\/p>\n<p>Sim, o \u201cterraplanismo\u201d econ\u00f4mico nasceu antes do morfol\u00f3gico. E veio muito bem acompanhado do \u201cnovo consenso macroecon\u00f4mico\u201d (anos 1970-80), que servia de justificativa, de apar\u00eancia t\u00e9cnica e formal, para liberalizar os fluxos comerciais e financeiros, para desmontar os Estados-nacionais pela privatiza\u00e7\u00e3o de tudo, como ocorreu no Brasil.<\/p>\n<p>O objetivo era aplainar o terreno para que florescesse o \u00edmpeto empreendedor dos indiv\u00edduos nos rec\u00f4nditos do planeta.\u00a0 Um mundo harm\u00f4nico, sem guerras e sem fronteiras. O neoliberalismo, como pol\u00edtica civilizat\u00f3ria (democracia e liberdade) Norte-Atl\u00e2ntica (Estados Unidos e Europa), poderia agora, com o mundo plano, escorrer para todos os cantos do planeta.<\/p>\n<p>Com o fim do comunismo e com as novas tecnologias da informa\u00e7\u00e3o (internet), todos poderiam participar da festa como indiv\u00edduos iguais. \u201cAgora que a guerra fria terminou, o sistema de mercado est\u00e1 se tornando universal\u201d (Micklethwait &amp; Wooldridge, 2000).<\/p>\n<p>T\u00e3o embriagados pela pr\u00f3pria ideologia, os terraplanistas foram pegos de surpresa pela crise mundial de 2008, que colocou em xeque a ideologia neoliberal na economia e, agora com a guerra, cai definitivamente a m\u00e1scara que encobria o jogo de poder Norte-Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Aparece sua verdadeira face como guerra pela hegemonia e controle do mundo, o que a globaliza\u00e7\u00e3o sempre foi.\u00a0 Deixa claro que o liberalismo sempre foi, n\u00e3o a liberdade de cada indiv\u00edduo decidir seu destino, mas a abertura comercial e financeira para as grandes corpora\u00e7\u00f5es se reposicionarem em seu controle sobre o mundo.<\/p>\n<p>Iludiram-se de que haviam enganado os russos quando quase destru\u00edram o pa\u00eds com pol\u00edticas neoliberais depois da queda do Muro de Berlim.<\/p>\n<p>Hoje, 20 anos depois, est\u00e1 claro que o projeto neoliberal da globaliza\u00e7\u00e3o nunca entregou o que prometeu. Sob o mote de levar liberdade e democracia para os \u201cpa\u00edses atrasados\u201d (n\u00e3o europeus\/norte-americanos), governos foram derrubados, pa\u00edses foram invadidos, revolu\u00e7\u00f5es \u201ccoloridas\u201d deixaram pa\u00edses em ru\u00ednas (S\u00edria, L\u00edbia etc.), como bem mostra Moniz Bandeira em seu\u00a0<i>A Segunda Guerra Fria<\/i>, de 2013.<\/p>\n<p>Em termos econ\u00f4micos, elevou a desigualdade e provocou a desindustrializa\u00e7\u00e3o em pa\u00edses importantes, inclusive naqueles pa\u00edses onde a ideologia foi gestada.<\/p>\n<p>Hoje a guerra demonstra claramente que o mundo harm\u00f4nico nunca passou de ilus\u00e3o e que se tratou do movimento das grandes corpora\u00e7\u00f5es em seu processo de expans\u00e3o e controle sobre espa\u00e7os relevantes no mundo, sobre mat\u00e9rias-primas e mercados, sobre processos de produ\u00e7\u00e3o cada vez mais monopolizados e oligopolizados, espalhados em regi\u00f5es conforme suas estrat\u00e9gias.<\/p>\n<p>S\u00f3 a China, ao fazer tudo ao contr\u00e1rio, aproveitou-se do v\u00e9u ideol\u00f3gico que inebriou os pr\u00f3prios governos do eixo Norte-Atl\u00e2ntico e se tornou pot\u00eancia amea\u00e7adora. Desenvolveu uma estrat\u00e9gia em parceria com as pr\u00f3prias grandes corpora\u00e7\u00f5es do sistema Norte-Atl\u00e2ntico que sa\u00edram pelo mundo a partir da ideologia globalizante.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia chinesa \u00e9 t\u00e3o bem montada que engana Kissinger, que n\u00e3o percebe nada do que est\u00e1 sendo gestado, como fica claro em seu livro\u00a0<i>Sobre a China<\/i>\u00a0de 2011.<\/p>\n<p>No Brasil, al\u00e9m da profunda desindustrializa\u00e7\u00e3o promovida pelo mergulho na onda liberalizante, abrimos m\u00e3o de recursos estrat\u00e9gicos para o funcionamento da economia.<\/p>\n<p>Vendemos a Petrobras para o capital estrangeiro, que fechou refinarias aqui para importar derivados de\u00a0 refinarias no exterior.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m estamos em vias de abrir m\u00e3o do recurso mais estrat\u00e9gico, a energia el\u00e9trica, pela privatiza\u00e7\u00e3o da Eletrobr\u00e1s. E pagaremos energia el\u00e9trica em d\u00f3lares (como a gasolina), moeda que as corpora\u00e7\u00f5es estrangeiras querem e com a qual calculam seus lucros sobre o investimento.<\/p>\n<p>Entregamos setores estrat\u00e9gicos que est\u00e3o na base de nossos custos e produtividade. Perdemos o setor petroqu\u00edmico ligado \u00e0 Petrobras, criado a duras penas, e que nos permitia pelo menos produzir parte dos fertilizantes nitrogenados que ora importamos da R\u00fassia, bem como as mat\u00e9rias-primas fundamentais (pl\u00e1sticos e resinas) para o que resta da ind\u00fastria interna.<\/p>\n<p>Assim, subordinamos nossa atividade econ\u00f4mica \u00e0 l\u00f3gica das grandes corpora\u00e7\u00f5es transnacionais e suas estrat\u00e9gias em seu processo de ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o global.<\/p>\n<p>Abrimos m\u00e3o de recursos que garantem nossa independ\u00eancia ao cair na f\u00e1bula do neoliberalismo, do mundo sem fronteiras, do mundo plano. Nossa cren\u00e7a nas \u201cfor\u00e7as alocativas do mercado\u201d destruiu nossa ind\u00fastria e nos tornou prim\u00e1rio-exportadores, como \u00e9ramos no s\u00e9culo 19, com o mesmo grau da velha depend\u00eancia que nos jogava em crises conforme o respiro do mundo, sem qualquer autonomia sobre nossa pr\u00f3pria din\u00e2mica econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>A guerra tem algo positivo. \u00c9 uma oportunidade para o Brasil redescobrir os problemas de como se inseriu na economia mundial.<\/p>\n<p>Torna expl\u00edcito que todos os pa\u00edses atuam no mundo de acordo com suas estrat\u00e9gias, de acordo com as estrat\u00e9gias das grandes corpora\u00e7\u00f5es que se utilizam de seu poder pol\u00edtico sobre cada Estado-Na\u00e7\u00e3o, segundo seus interesses de poder e controle.<\/p>\n<p>Talvez o Brasil perceba que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel se desenvolver sem ter autonomia, exportando soja e min\u00e9rio de ferro,\u00a0<em>commodities<\/em>\u00a0facilmente substitu\u00edveis e de baixo valor agregado, hoje controladas internacionalmente por grandes\u00a0<i>traders<\/i>\u00a0transnacionais.<\/p>\n<p>No capitalismo, o mundo n\u00e3o \u00e9 um mercado cooperativo, mas uma guerra por espa\u00e7o e controle, como sempre foi.<\/p>\n<p><em><b>Rubens R. Sawaya\u00a0<\/b>\u00e9 professor do Departamento de Economia e da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Economia Pol\u00edtica da PUC-SP (Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo) e autor de\u00a0Subordinated Development, transnational capital in the process of accumulation of Latin America and Brazil, Brill\/Hymarket, 2018-19.<\/em><\/p>\n<p>Publicado originalmente no ve\u00edculo <a href=\"https:\/\/www.holofotenoticias.com.br\/economia\/guerra-na-ucrania-demonstra-que-neoliberalismo-nunca-desejou-mundo-harmonico\">Holofote<\/a>.<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guerra marca o fim do terraplanismo econ\u00f4mico Por Rubens R. Sawaya Foi nos anos 1990 que a ideologia da globaliza\u00e7\u00e3o ganhou seus propagandistas mais ferrenhos, na \u00e2nsia de demonstrar que o mundo agora se tornava um s\u00f3. 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