{"id":16688,"date":"2022-01-20T14:48:22","date_gmt":"2022-01-20T17:48:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=16688"},"modified":"2022-01-20T14:48:22","modified_gmt":"2022-01-20T17:48:22","slug":"combater-desigualdades-e-mudar-a-economia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=16688","title":{"rendered":"Combater desigualdades e mudar a Economia"},"content":{"rendered":"<p>O avan\u00e7o da nova variante da covid-19 na \u00faltima semana acende um alerta se teremos entrado em 2022 sem saber ao certo se j\u00e1 terminamos o longo 2020, que durou 2021 inteiro. A boa not\u00edcia \u00e9 que os dados apontam para quadros de baixa gravidade e uma letalidade baix\u00edssima para quem tomou as duas doses de vacina. A m\u00e1 not\u00edcia \u00e9 que o Presidente da Rep\u00fablica continua negando a import\u00e2ncia da vacina\u00e7\u00e3o, falando at\u00e9 mesmo que n\u00e3o levar\u00e1 sua filha de 11 anos para se imunizar.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-16693 alignleft\" src=\"http:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/indice-2-1024x683-1-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"411\" height=\"274\" srcset=\"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/indice-2-1024x683-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/indice-2-1024x683-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/indice-2-1024x683-1-800x534.jpg 800w, https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/indice-2-1024x683-1.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 411px) 100vw, 411px\" \/>A crise da covid atingiu o Brasil em cheio, e a m\u00e1 condu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da crise, o negacionismo e\u00a0<em>terraplanismo<\/em>\u00a0que dominaram o discurso oficial desde os primeiros dias pioraram em muito o que poderia ter sido a resposta brasileira. Mas, al\u00e9m disso, a gravidade da crise tamb\u00e9m foi acentuada por ter atingido a economia brasileira em um momento em que as perspectivas para 2020 j\u00e1 n\u00e3o eram boas. Nos \u00faltimos dois trimestres de 2019 o PIB sofreu desacelera\u00e7\u00e3o, o crescimento daquele ano foi de apenas 1,1%, com o desemprego batendo 11%.<\/p>\n<p>A fragilidade da economia j\u00e1 em 2019 apontava que os rem\u00e9dios escolhidos para a recupera\u00e7\u00e3o pelos governos Temer e Bolsonaro \u2013 mais cortes e menos direitos \u2013 n\u00e3o haviam demonstrado resultados; muito menos entregado o prometido. A austeridade se provou ser a cloroquina da economia: sem comprova\u00e7\u00e3o de resultados em qualquer canto do mundo, era recomendada e seguida mais por profiss\u00e3o de f\u00e9 e por interesse pol\u00edtico do que por ci\u00eancia.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio econ\u00f4mico inst\u00e1vel j\u00e1 apontava para um aprofundamento das m\u00faltiplas desigualdades sociais, a pandemia aprofundou este impacto. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o efeito mais perverso da pandemia foi o alargamento das desigualdades. As mulheres foram as primeiras a perder o emprego e as \u00faltimas a recuper\u00e1-lo. O per\u00edodo de confinamento significou um aumento da viol\u00eancia dom\u00e9stica e da sobrecarga de trabalho de cuidado. A popula\u00e7\u00e3o negra tamb\u00e9m perdeu mais rapidamente seus postos de trabalho, assim como teve o maior achatamento de seus rendimentos. Uma doen\u00e7a que chegou pela elite branca que viajava \u00e0 Europa teve suas maiores taxas de letalidade na popula\u00e7\u00e3o preta e nas periferias das grandes cidades. A juventude, que historicamente enfrenta maiores taxas de desemprego, viu essa diferen\u00e7a se alargar ainda mais, e os poucos que conseguiram permanecer com alguma fonte de renda passaram a encontrar riscos cada vez maiores e condi\u00e7\u00f5es extremamente prec\u00e1rias e vulner\u00e1veis \u2013 sem qualquer direito.<\/p>\n<p>O ano de 2020 s\u00f3 n\u00e3o foi pior porque a oposi\u00e7\u00e3o conquistou o Aux\u00edlio Emergencial, que impediu que quase 30 milh\u00f5es de brasileiros entrassem em situa\u00e7\u00e3o de pobreza extrema e impediu uma queda mais dram\u00e1tica da atividade. J\u00e1 nos \u00faltimos meses do ano, quando as transfer\u00eancias foram cortadas pela metade, vimos uma desacelera\u00e7\u00e3o da economia e piora do quadro social. A experi\u00eancia nos ensina que renda para a popula\u00e7\u00e3o mais pobre e garantia de condi\u00e7\u00f5es dignas de vida s\u00e3o o que dinamiza a economia. Disto, sim, temos comprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As dificuldades foram agravadas quando em 2021 passamos os tr\u00eas primeiros meses do ano sem qualquer aux\u00edlio, e diariamente vimos not\u00edcias nos jornais dando conta do retorno da fome em um contexto de cada vez maior trag\u00e9dia social. Quando o aux\u00edlio voltou, voltou praticamente cortado pela metade (metade!), que mal era suficiente para pagar um botij\u00e3o de g\u00e1s. Enquanto isso, o pa\u00eds sofreu com o aumento de casos e mortes pela segunda onda do coronav\u00edrus, ao passo que Bolsonaro se recusava a comprar vacinas.<\/p>\n<p>O desemprego chegou a ultrapassar 14% e hoje ainda se encontra em 12%. Na juventude, essa taxa chegou a ultrapassar 30%. A subutiliza\u00e7\u00e3o e o desalento cresceram muito em todas as faixas et\u00e1rias e, das vagas de trabalho criadas em 2021, 54% foram na informalidade. O rendimento m\u00e9dio do trabalho caiu, puxado pela queda mais brusca nas faixas de renda mais baixas, e as fam\u00edlias terminaram o ano mais pobres. Junto a isso, a massa de rendimentos, que considera o total ganho por todas as pessoas ocupadas, apresentou queda em todos os trimestres, evidenciando a deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>Um dos grandes problemas que marcou 2021 foi a acelera\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 vinha do final de 2020, e que encerrou esse ano acima dos dois d\u00edgitos, em 10,06%. Entre os principais respons\u00e1veis, estiveram os pre\u00e7os administrados, como combust\u00edveis e energia el\u00e9trica. A energia el\u00e9trica subiu por conta da crise energ\u00e9tica que vivemos, que poderia ter sido em muito atenuada com um melhor planejamento energ\u00e9tico, uma vez que o Brasil na \u00faltima d\u00e9cada reduziu em muito a sua depend\u00eancia de energia h\u00eddrica. Os combust\u00edveis possuem impacto em cadeia sobre os valores dos fretes e do transporte, e subiram mais no Brasil do que em quase todos os demais pa\u00edses do mundo por conta da irresponsabilidade da atual pol\u00edtica de pre\u00e7os da Petrobr\u00e1s. Em parte, a alta foi motivada pela recupera\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo, que passaram 2020 reprimidos. Por\u00e9m, em parte se deveu \u00e0 desvaloriza\u00e7\u00e3o do real frente ao d\u00f3lar, cujo impacto se acentuou devido \u00e0 aus\u00eancia de uma pol\u00edtica de suaviza\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os por parte da Petrobras, mesmo com lucros crescentes \u2013 refletindo uma vis\u00e3o que prioriza a remunera\u00e7\u00e3o do acionista de curto prazo do que do bom funcionamento da economia como um todo.<\/p>\n<p>Outros itens que puxaram a infla\u00e7\u00e3o foram aqueles que pesam mais na cesta de consumo dos mais pobres, como alimentos e g\u00e1s de cozinha. Tudo isso, em um cen\u00e1rio de contra\u00e7\u00e3o da renda e elevado desemprego, corroeu ainda mais o poder de compra das fam\u00edlias, regredindo em conquistas t\u00e3o importantes de valoriza\u00e7\u00e3o da renda dos trabalhadores e trabalhadoras. Para se ter uma ideia, em 2002 a cesta b\u00e1sica custava 80% do sal\u00e1rio-m\u00ednimo. Com a pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio-m\u00ednimo, ganhos reais em negocia\u00e7\u00f5es coletivas, aquecimento do mercado de trabalho com a estabilidade dos pre\u00e7os, em 2014, a cesta custava 48% do m\u00ednimo. Hoje, voltou a custar 63%. Ou seja, com mil reais em 2002 ap\u00f3s comprar uma cesta b\u00e1sica sobrava menos de 200 reais. Em 2014, mais de 500. Agora, sobram s\u00f3 370.<\/p>\n<p>O reajuste do sal\u00e1rio m\u00ednimo anunciado pelo governo esta semana foi ligeiramente abaixo da infla\u00e7\u00e3o, em 10,04%. O m\u00ednimo-hor\u00e1rio, que baliza a remunera\u00e7\u00e3o dos trabalhadores horistas definidos pelo governo, ficou em R$5,51. O governo optou por calcular a hora com base no sal\u00e1rio m\u00ednimo considerando cinco semanas \u00fateis por m\u00eas \u2013 o que raramente ocorre \u2013 em um cen\u00e1rio em que larga parcela dos trabalhadores encontra-se em contratos horistas, intermitentes e, muitas vezes, prec\u00e1rios. A perspectiva \u00e9 de nova perda real do poder de compra, se nada ocorrer\u2026<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s da alta dos pre\u00e7os, esteve uma press\u00e3o de custos. A descoordena\u00e7\u00e3o da atividade pelo mundo por conta da pandemia gerou uma desarticula\u00e7\u00e3o das cadeias produtivas globais, gerando escassez de insumos e equipamentos, o que pressionou os pre\u00e7os dos bens finais. A taxa de c\u00e2mbio, em muito desvalorizada durante o ano todo, pressionou o valor dos produtos importados e aumentou relativamente a rentabilidade das exporta\u00e7\u00f5es ante a venda dom\u00e9stica \u2013 ainda mais em um cen\u00e1rio de demanda interna reprimida. Vale lembrar que, para al\u00e9m de um cen\u00e1rio externo de incertezas, parte da desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial tamb\u00e9m \u00e9 fruto das enormes irresponsabilidades pol\u00edticas e sanit\u00e1rias promovidas por Bolsonaro. Quando um presidente nega a efic\u00e1cia da vacina ou chama o povo para ir \u00e0s ruas defender uma interven\u00e7\u00e3o no Supremo Tribunal Federal, s\u00e3o geradas incertezas que t\u00eam reflexos na taxa de c\u00e2mbio.<\/p>\n<p>Para encarar a alta da infla\u00e7\u00e3o, o Banco Central optou por uma escalada exacerbada da taxa de juros, abrindo m\u00e3o de outros instrumentos que poderiam contribuir para a suaviza\u00e7\u00e3o das flutua\u00e7\u00f5es cambiais, e ignorando as condi\u00e7\u00f5es de demanda da economia \u2013 o fato de tr\u00eas em cada quatro fam\u00edlias estarem endividadas \u2013 e o elevado grau de endividamento das empresas. Inclusive, na primeira semana do ano, Bolsonaro vetou o projeto de lei de reescalonamento das d\u00edvidas das micro e pequenas empresas (MPEs), permitindo que v\u00e1rias dessas empresas \u2013 que s\u00e3o as maiores geradoras de empregos do pa\u00eds \u2013 continuem caminhando para a fal\u00eancia.<\/p>\n<p>Vamos terminar o ano com o pa\u00eds mais pobre, elevado desemprego, o retorno da fome \u2013 tendo duas vezes a popula\u00e7\u00e3o de Portugal passando fome e mais da metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar \u2013, alta infla\u00e7\u00e3o, juros galopantes e expectativa de baixo crescimento. Com efeito, o crescimento esperado de 4,5% para o ano \u00e9 como se a economia tivesse ficado estagnada no final de 2019, quando o PIB caiu 4,1%.<\/p>\n<p>Para 2022, a expectativa \u00e9 de estagna\u00e7\u00e3o, com 0,36% projetado para o PIB no \u00faltimo Boletim Focus. Se nada for feito, o desemprego deve continuar elevado, e a expectativa \u00e9 que a infla\u00e7\u00e3o termine o ano em 5% (com o centro da meta em 3,5%), com a taxa b\u00e1sica de juros voltando aos dois d\u00edgitos. Come\u00e7amos um ano em que o investimento vai ser t\u00e3o necess\u00e1rio para a retomada da atividade com a diretoria do BNDES anunciando que tem como meta subir a taxa de juros de longo prazo, quando a fun\u00e7\u00e3o de um banco de desenvolvimento, ainda mais nesse contexto, deveria ser justamente o oposto, de garantir taxas de juros mais atrativas para o investimento atuando para atenuar a tradicional prociclicidade do cr\u00e9dito privado \u2013 que s\u00f3 aparece nos momentos de\u00a0<em>boom<\/em>.<\/p>\n<p>Por fim, a tramita\u00e7\u00e3o do Aux\u00edlio Brasil repetiu a din\u00e2mica do Aux\u00edlio Emergencial: sua parte boa \u00e9 fruto da disputa da oposi\u00e7\u00e3o no Congresso, seus aspectos negativos foram propostos pelo Executivo. O avan\u00e7o importante esteve na eleva\u00e7\u00e3o do valor m\u00e9dio e no n\u00famero de benefici\u00e1rios, al\u00e9m de sua inclus\u00e3o na Constitui\u00e7\u00e3o. Por outro lado, o desenho tornou um programa consolidado e reconhecido, como era o Bolsa Fam\u00edlia, em algo confuso, com uma multiplicidade de objetivos que n\u00e3o cabem em um programa de combate \u00e0 fome e \u00e0 mis\u00e9ria. Mas a comprova\u00e7\u00e3o de resultados e efic\u00e1cia n\u00e3o parece algo que preocupa muito o atual governo. Ainda, h\u00e1 d\u00favidas sobre a capacidade de gest\u00e3o do programa, com o corte brusco de verbas do Sistema \u00danico de Assist\u00eancia Social (SUAS) \u2013 respons\u00e1vel pelo Cadastro \u00danico (Cad\u00danico). No ano passado, o SUAS recebeu menos da metade do valor or\u00e7ado para o \u00faltimo ano efetivamente empenhado e que sofreu corte de 70% desde o in\u00edcio do governo Bolsonaro \u2013 recebendo o menor or\u00e7amento da d\u00e9cada em 2021 \u2013 quando nunca antes se fez t\u00e3o necess\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Da economia que temos \u00e0 economia que queremos<\/strong><\/p>\n<p>Precisamos de uma agenda que enfrente hoje os maiores problemas do Brasil, que s\u00e3o a volta da fome, o desemprego e as desigualdades. E que encare o problema global das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, que j\u00e1 assola a vida de milh\u00f5es de pessoas no Brasil e do mundo, colocando no centro a necessidade da transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica. O Brasil iniciou este s\u00e9culo sendo refer\u00eancia mundial no combate \u00e0 fome e no crescimento com inclus\u00e3o social, temos condi\u00e7\u00f5es de nessa d\u00e9cada mostrar que \u00e9 poss\u00edvel e urgente compatibilizar o desenvolvimento inclusivo com o respeito ao meio ambiente.<\/p>\n<p>Para isso, precisamos retomar o papel do Estado, n\u00e3o s\u00f3 na reconstru\u00e7\u00e3o, mas no planejamento, construindo um programa de longo prazo, que n\u00e3o olhe s\u00f3 para o pr\u00f3ximo ano, mas que pense o desenvolvimento para a pr\u00f3xima d\u00e9cada. Uma agenda para o futuro depende da exist\u00eancia deste futuro, da exist\u00eancia de um planeta que garanta condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia nesse futuro. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida dos impactos reais das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Por um lado, as secas prolongadas e a crise h\u00eddrica que enfrentamos na \u00faltima d\u00e9cada, por outro, as chuvas fortes que provocaram trag\u00e9dias na Bahia no fim de 2021 e em Minas Gerais no in\u00edcio de 2022. Al\u00e9m disso, o aumento significativo de doen\u00e7as respirat\u00f3rias nas cidades, que afetam desproporcionalmente a popula\u00e7\u00e3o preta e perif\u00e9rica. N\u00f3s, que j\u00e1 fomos exemplo mundial de que \u00e9 poss\u00edvel crescer distribuindo renda \u2013 e que distribuir renda gera crescimento \u2013 podemos ser exemplo de um modelo de desenvolvimento inclusivo com respeito ao meio ambiente.<\/p>\n<p>O combate \u00e0s desigualdades pode ser visto como uma oportunidade para o desenvolvimento. O combate \u00e0s desigualdades sociais, clim\u00e1ticas, de g\u00eanero, de ra\u00e7a. Universalizar o saneamento b\u00e1sico pode ser uma oportunidade de gera\u00e7\u00e3o de empregos. Repensar a economia do cuidado, trabalho invisibilizado feito pelas mulheres pode ser uma fonte de gera\u00e7\u00e3o de renda. O combate \u00e0 fome al\u00e9m de uma urg\u00eancia humanit\u00e1ria pode ser uma oportunidade para gera\u00e7\u00e3o de empregos e de repensar a rela\u00e7\u00e3o extrativa de parte da produ\u00e7\u00e3o de alimentos. A cria\u00e7\u00e3o de oportunidades educacionais e de desenvolvimento tecnol\u00f3gico inclusivo \u00e9 uma oportunidade de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, um programa que olhe para o futuro precisa olhar para a cria\u00e7\u00e3o de oportunidades para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es. Hoje a juventude \u00e9 quem mais sofre com a crise. Um ter\u00e7o dos\/as jovens brasileiros est\u00e3o desalentados, sem qualquer perspectiva para sequer procurar trabalho. Daqueles que est\u00e3o no mercado de trabalho, um ter\u00e7o est\u00e1 desempregado. Daqueles poucos que trabalham, um em cada cinco trabalha menos horas do que gostaria, recebendo tamb\u00e9m menos do que precisa. H\u00e1 ainda quase 15% dos que est\u00e3o ocupados que trabalham jornadas exaustivas, de mais de 44h, muitas vezes recebendo menos de um sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p>Estes s\u00e3o os postos de trabalho criados pela Reforma Trabalhista \u2013 prec\u00e1rios, exaustivos e sem direitos. Depois de cinco anos da reforma, temos os mais altos n\u00edveis de desemprego da hist\u00f3ria, rendimentos do trabalho decrescentes e a crescente precariza\u00e7\u00e3o. Hoje, pouco mais de 40% dos trabalhadores possuem contratos de trabalho formais, quando j\u00e1 chegaram a ser mais de 75%. A falta da formalidade n\u00e3o s\u00f3 elimina os direitos como elimina a estabilidade dos trabalhadores, o que prejudica tamb\u00e9m o planejamento das fam\u00edlias. Se h\u00e1 seguran\u00e7a de manuten\u00e7\u00e3o do emprego e, em caso de perda, de acesso ao seguro-desemprego, \u00e9 poss\u00edvel planejar construir uma casa, comprar uma geladeira, e adiar a entrada de adolescentes e jovens no mercado de trabalho, podendo permanecer mais tempo estudando.<\/p>\n<p>Precisamos voltar a construir um pa\u00eds que d\u00ea orgulho de ser brasileiro, em que as fam\u00edlias possam fazer um churrasco no fim de semana para comemorar que o filho passou na faculdade. Que 2022 seja o \u00faltimo ano que a gente come\u00e7a s\u00f3 torcendo pelo seu final.<\/p>\n<p><em>Mat\u00e9ria originalmente publicada no portal Outras Palavras. Por <strong>Ana Paula Garcia<\/strong>,<strong>\u00a0Beatrice Fontenelle-Weber<\/strong>,<strong>\u00a0Ligia Toneto<\/strong>,<strong>\u00a0Matias Cardomingo<\/strong>\u00a0e<strong>\u00a0Rodrigo Toneto<\/strong>*\u00a0<\/em><\/p>\n<p>* Ana Paula Garcia \u00e9 graduanda em economia na FEA-USP;\u00a0Beatrice Fontenelle-Weber \u00e9 doutoranda em economia pelo Insper; Ligia Toneto \u00e9 mestranda em economia pelo IE-Unicamp; Matias Cardomingo \u00e9 mestre em economia pela FEA-USP e pesquisador do MADE-USP; Rodrigo Toneto \u00e9 doutorando em economia pela Queen Mary University of London e pesquisador do MADE-USP. Todos os autores integram a rede Desajuste: Economia Fora da Curva (@desajusteecon)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O avan\u00e7o da nova variante da covid-19 na \u00faltima semana acende um alerta se teremos entrado em 2022 sem saber ao certo se j\u00e1 terminamos o longo 2020, que durou 2021 inteiro. 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