{"id":16356,"date":"2021-12-01T15:25:14","date_gmt":"2021-12-01T18:25:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=16356"},"modified":"2021-12-01T15:25:14","modified_gmt":"2021-12-01T18:25:14","slug":"tempestade-perfeita-na-economia-e-agravada-pela-alta-dos-juros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=16356","title":{"rendered":"Tempestade perfeita na economia \u00e9 agravada pela alta dos juros"},"content":{"rendered":"\n<p>O presidente do Cofecon, Antonio Corr\u00eaa de Lacerda, concedeu entrevista ao Sindicato dos Engenheiros no Estado de S\u00e3o Paulo (Seesp) e avaliou o atual momento da economia brasileira. &#8220;A pandemia afetou praticamente o mundo todo, mas particularmente no Brasil foi uma trag\u00e9dia de erros&#8221;, comentou. Ele criticou a gest\u00e3o da pandemia (&#8220;\u00c9 preciso combater a pandemia para preservar a economia, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. O bem mais valoroso, at\u00e9 economicamente, \u00e9 a vida&#8221;), o aumento da taxa de juros e o teto de gastos e falou sobre o pacote de est\u00edmulos de Joe Biden, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A entrevista pode ser lida abaixo e acessada em sua publica\u00e7\u00e3o original (inclusive com v\u00eddeo) clicando <a href=\"https:\/\/www.seesp.org.br\/site\/index.php\/jornal-do-engenheiro\/item\/20747-tempestade-perfeita-na-economia-e-agravada-pela-alta-dos-juros\">AQUI<\/a>.<\/p>\n<p><strong>SEESP: Qual o quadro atual da economia nacional, marcado, para a popula\u00e7\u00e3o, por falta de emprego e pre\u00e7os altos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LACERDA<\/strong>: N\u00f3s vivemos uma combina\u00e7\u00e3o perversa que poder\u00edamos chamar de quase uma tempestade perfeita. A economia brasileira antes da pandemia j\u00e1 n\u00e3o vinha bem, ao contr\u00e1rio de algumas an\u00e1lises. No final de 2019, a propaganda oficial era que finalmente ir\u00edamos viver a retomada da economia. Mas eu e v\u00e1rios economistas j\u00e1 alert\u00e1vamos que n\u00e3o era bem assim. A op\u00e7\u00e3o ultraliberal do Governo Bolsonaro e da equipe econ\u00f4mica do Paulo Guedes n\u00e3o trazia essa perspectiva, n\u00e3o havia vetores para o crescimento da economia. Em 2017, 2018 e 2019, o crescimento brasileiro foi muito baixo, pouco acima de 1%. A pandemia afetou praticamente o mundo todo, mas particularmente no Brasil foi uma trag\u00e9dia de erros. P\u00e9ssima gest\u00e3o, negacionismo, uso de recursos p\u00fablicos para falsas solu\u00e7\u00f5es, como a cloroquina, altern\u00e2ncia no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, que deveria coordenar tudo isso, problemas de relacionamento entre os poderes, a briga do Executivo nacional com estados e municipais. Enfim, foi uma trag\u00e9dia que tem nos custado mais de 600 mil v\u00edtimas fatais, sem contar a subnotifica\u00e7\u00e3o de \u00f3bitos. E tudo isso se reflete na economia. Nem de longe pensar no equ\u00edvoco de privilegiar a economia [em detrimento da sa\u00fade], o que \u00e9 um erro; \u00e9 preciso combater a pandemia para preservar a economia, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. O bem mais valoroso, at\u00e9 economicamente, \u00e9 a vida. Mas o resultado disso tudo foi uma recess\u00e3o muito forte em 2020, quebra de empresas, desemprego, precariza\u00e7\u00e3o, muitas fam\u00edlias falidas, aumento da popula\u00e7\u00e3o de rua, da vulnerabilidade social e da inseguran\u00e7a alimentar. Em 2021, a economia melhora, mas isso \u00e9 um efeito estat\u00edstico. Como teve uma paralisa\u00e7\u00e3o muito forte, \u00e0 medida que as atividades v\u00e3o retomando, estatisticamente, mostra um crescimento, [o que os dados apontam] toda vez que se produz mais relativamente ao per\u00edodo anterior. Por isso n\u00f3s, economistas da minha linha te\u00f3rica, usamos mais o conceito do desenvolvimento, que \u00e9 qualitativo. Desenvolvimento \u00e9 como isso interfere na vida das pessoas. Uma vis\u00e3o equivocada usual \u00e9 \u201cestamos em recupera\u00e7\u00e3o\u201d. Recupera\u00e7\u00e3o de quem, cara p\u00e1lida? Porque o desemprego atinge hoje oficialmente 14 milh\u00f5es de pessoas, que s\u00e3o os desocupados. Mas temos mais 5 milh\u00f5es desalentadas, as que desistiram de procurar porque n\u00e3o veem perspectivas de obter um emprego. E 10 milh\u00f5es de subocupados. Nesse conceito amplo, tem 30 milh\u00f5es de pessoas fora do mercado de trabalho, quase um ter\u00e7o da PEA (Popula\u00e7\u00e3o Economicamente Ativa). Para completar o quadro, temos uma acelera\u00e7\u00e3o inflacion\u00e1ria enorme, que tem afetado alimento, combust\u00edvel, g\u00e1s de cozinha, energia, tudo o que pesa muito na cesta de consumo. E quanto menor a renda, maior o peso desses itens que s\u00e3o muito necess\u00e1rios. Uma situa\u00e7\u00e3o muito ruim e que tem levado a uma dificuldade enorme para a maioria da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p><strong>Com sair dessa tempestade perfeita? E por que subir os juros n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o para a infla\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>No caso da infla\u00e7\u00e3o brasileira, \u00e9 preciso entend\u00ea-la. Em geral, elevam-se juros para desaquecer a demanda. Mas no Brasil, pela conjun\u00e7\u00e3o de fatores a que me referi, voc\u00ea tem uma economia destru\u00edda. Eu me referi ao PIB (Produto Interno Bruto), mas h\u00e1 tamb\u00e9m dois indicadores bem conhecidos da \u00e1rea de engenharia. Um \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o industrial brasileira, que j\u00e1 vinha de uma estagna\u00e7\u00e3o de pelo menos dez anos em 2019, se agravou na pandemia e neste ano n\u00e3o est\u00e1 se recuperando, pelo contr\u00e1rio, continua caindo. A ind\u00fastria \u00e9 o motor da economia pelo seu papel de valor agregado, \u00e9 motivadora de v\u00e1rias outras atividades. O segundo elemento muito importante s\u00e3o os investimentos, que \u00e9 a chamada forma\u00e7\u00e3o bruta de capital, ou seja, infraestrutura, constru\u00e7\u00e3o civil, m\u00e1quinas e equipamentos. Caiu absurdamente, est\u00e1 em eleva\u00e7\u00e3o, mas com a ressalva de que a base \u00e9 muito baixa. Se tomar como base 2014, estamos 30 pontos abaixo do investimento daquele momento. A revers\u00e3o desse processo passa pela ado\u00e7\u00e3o de um conjunto de pol\u00edticas p\u00fablicas que s\u00e3o necess\u00e1rias emergencialmente, e outras de forma mais estrutural. A economia s\u00f3 n\u00e3o caiu mais em 2020 em fun\u00e7\u00e3o do aux\u00edlio emergencial, para o qual o governo havia proposto R$ 200,00 e o Congresso elevou para R$ 600,00. Quando falo de 30 milh\u00f5es de pessoas fora do mercado de trabalho, isso \u00e9 um problema social grav\u00edssimo, mas tamb\u00e9m um problema econ\u00f4mico. S\u00e3o 30 milh\u00f5es de consumidores fora do mercado. Ent\u00e3o, essa \u00e9 uma primeira quest\u00e3o: garantir o provimento de recursos para sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e aux\u00edlio social aos que necessitam para preserva\u00e7\u00e3o da vida e ativa\u00e7\u00e3o da economia. Subir taxa de juros neste momento \u00e9 a pior coisa que se pode fazer.<\/p>\n<p><strong>Se \u00e9 um erro t\u00e3o evidente, por que se adota essa medida?<\/strong><\/p>\n<p>Quando voc\u00ea eleva a taxa de juros, obviamente isso n\u00e3o \u00e9 uma medida neutra, todos os detentores de cr\u00e9dito e ativos s\u00e3o favorecidos. Quando o Banco Central eleva os juros, o mercado financeiro est\u00e1 sendo beneficiado. No Brasil, tem uma s\u00e9rie de profecias autorrealiz\u00e1veis, porque a for\u00e7a da forma\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o dos bancos, das financeiras e dos analistas ligados a essas entidades influencia o Banco Central e suas decis\u00f5es. Ent\u00e3o, temos o pior dos mundos, porque h\u00e1 a tempestade perfeita econ\u00f4mica, no sentido perverso, com a medida corretiva absolutamente equivocada. O setor produtivo brasileiro, exceto o agroneg\u00f3cio, que \u00e9 amplamente beneficiado por uma s\u00e9rie de fatores, inclusive pela subida dos pre\u00e7os internacionais das commodities (min\u00e9rio de ferro, gr\u00e3os, petr\u00f3leo, cobre etc.), \u00e9 ultra-acanhado e n\u00e3o tem tido voz. Estamos aqui falando n\u00e3o s\u00f3 de pol\u00edtica econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m de economia pol\u00edtica. Quem s\u00e3o os atores que influenciam as decis\u00f5es? Para fazer o qu\u00ea? At\u00e9 o propalado ajuste fiscal depende da retomada, porque o Estado n\u00e3o cria recursos, apropria-se deles atrav\u00e9s da cobran\u00e7a de impostos. \u00c9 preciso inverter as prioridades na pol\u00edtica econ\u00f4mica, mas n\u00e3o tenho a menor expectativa que isso ocorra na atual gest\u00e3o. Dois mil e vinte e dois \u00e9 um ano de elei\u00e7\u00f5es gerais, e esse tema precisa ser debatido, um projeto de Na\u00e7\u00e3o. N\u00e3o vamos mais cometer o erro de eleger algu\u00e9m que n\u00e3o apresente o seu projeto econ\u00f4mico ou o terceirize a um posto de combust\u00edvel ou a algo que o valha. Temos essa oportunidade, mas n\u00e3o basta s\u00f3 votar, \u00e9 preciso discutir as alternativas e fazer com que aquela que for mais favor\u00e1vel \u00e0 sociedade brasileira, e n\u00e3o s\u00f3 a um setor, prevale\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Como o teto de gastos, institu\u00eddo pela Emenda Constitucional 95, representa um entrave \u00e0s medidas necess\u00e1rias \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o da economia?<\/strong><\/p>\n<p>O teto de gastos tem um v\u00edcio de origem terr\u00edvel, que \u00e9 comparar equivocadamente o gasto p\u00fablico com o or\u00e7amento dom\u00e9stico. N\u00f3s, mortais, fam\u00edlias, empresas, pessoas, temos \u00f3bvias limita\u00e7\u00f5es de gastos, mas n\u00e3o \u00e9 o caso do Estado, por v\u00e1rios motivos. Primeiro, pode emitir moeda; segundo, tem um poder fant\u00e1stico de endividamento. Todos os Estados nacionais s\u00e3o deficit\u00e1rios e endividados, n\u00e3o por serem perdul\u00e1rios, mas porque t\u00eam compromissos \u2013 em geral numa democracia, definidos numa Constitui\u00e7\u00e3o, como no nosso caso \u2013 e t\u00eam fun\u00e7\u00e3o de, numa crise, exercer o papel contrac\u00edclico. Na crise, o Estado precisa ampliar gastos, \u00e9 uma matriz keynesiana de 100 anos, n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade. Quando voc\u00ea amarra a expans\u00e3o do gasto por 20 anos, est\u00e1 tirando o poder do Estado como elemento propulsor do combate \u00e0 crise e do fomento ao desenvolvimento. Outro aspecto: ao colocar na cesta todos os tipos de gastos, o item que est\u00e1 sendo sacrificado n\u00e3o s\u00e3o as emendas parlamentares ou os gastos corporativos, mas sim o investimento em infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento, pol\u00edticas sociais. Veja o que aconteceu recentemente com ci\u00eancia e tecnologia, um corte de 90% do or\u00e7amento, um absurdo. E o mercado financeiro tamb\u00e9m aplaude, porque n\u00e3o faz parte do teto o pagamento de juros do governo sobre a d\u00edvida p\u00fablica. A chamada austeridade impressiona, vai ao encontro do senso comum, mas temos que sair disso. Veja o que est\u00e1 ocorrendo nos Estados Unidos, onde [o presidente Joe] Biden apresentou um programa trilion\u00e1rio de investimento com coordena\u00e7\u00e3o do Estado para induzir crescimento. N\u00e3o estamos falando de nenhum governo esquerdista, mas de um governo democr\u00e1tico [para o qual], a exemplo do ocorre na Alemanha, no Jap\u00e3o, na Coreia do Sul, est\u00e1 muito claro o papel do Estado em conjunto com a iniciativa privada. O mercado n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 Faria Lima, somos todos n\u00f3s, que trabalhamos, produzimos; \u00e9 a sociedade e suas entidades representativas. Temos que nos fazer ouvir porque temos o que dizer. O \u201cCresce Brasil\u201d \u00e9 uma iniciativa de muitos anos dos engenheiros com o qual tenho a satisfa\u00e7\u00e3o de colaborar porque vai ao encontro do que estamos falando: a sociedade se mobilizando, aproveitando as especialidades de cada um para apresentar um projeto de desenvolvimento ao Pais.<\/p>\n<p><strong>E o pacote Biden tamb\u00e9m leva em conta a quest\u00e3o ambiental e o combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/strong><\/p>\n<p>Assim como n\u00e3o h\u00e1 uma contraposi\u00e7\u00e3o entre sa\u00fade e economia, Estado e iniciativa privada, muito menos h\u00e1 entre desenvolvimento, meio ambiente e quest\u00e3o social. Todas essas quest\u00f5es est\u00e3o no bojo do conceito de desenvolvimento sustent\u00e1vel que \u00e9 t\u00e3o caro para todos n\u00f3s. Nesse sentido, o Brasil tem muito a oferecer, somos um dos maiores mercados do mundo, temos \u00e1rea agricult\u00e1vel, energia renov\u00e1vel em grande escala, uma boa capacidade h\u00eddrica, talvez a maior do mundo e, apesar da desindustrializa\u00e7\u00e3o, o maior parque industrial da Am\u00e9rica Latina. N\u00e3o \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente, com apoio ou omiss\u00e3o dos poderes, o que est\u00e1 ocorrendo hoje, que vai nos levar ao caminho do desenvolvimento. Mudar essa rota vai depender de todos n\u00f3s, brasileiros. As op\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e9cnicas, os engenheiros, os economistas, os advogados podem contribuir, mas h\u00e1 as op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, temos que fazer a escolha adequada e exigir dos postulantes ao Executivo e ao Legislativo que apresentem os seus projetos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":16314,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-16356","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/16356"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=16356"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/16356\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/16314"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=16356"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=16356"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=16356"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}