{"id":14322,"date":"2021-03-26T11:55:14","date_gmt":"2021-03-26T14:55:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=14322"},"modified":"2021-03-26T11:55:14","modified_gmt":"2021-03-26T14:55:14","slug":"artigo-crescer-para-quem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=14322","title":{"rendered":"Artigo &#8211; Crescer para quem?"},"content":{"rendered":"\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> Temos visto, no centro do debate econ\u00f4mico dos \u00faltimos meses, quest\u00f5es como: N\u00e3o havendo a pandemia, quanto o PIB teria aumentado em 2020? Sua retra\u00e7\u00e3o, em fun\u00e7\u00e3o da pandemia, poderia ter sido menor? Tivemos ou teremos a recupera\u00e7\u00e3o em V e o que precisamente isso significa? O PIB continuar\u00e1 se recuperando e em que ritmo? Ainda que pertinentes, tais quest\u00f5es n\u00e3o devem ofuscar a principal: Crescer para quem?<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> O governo tem insistido com os cortes nos gastos p\u00fablicos e com as reformas econ\u00f4micas, alegando ser a estrat\u00e9gia adequada para o PIB crescer mais r\u00e1pido, com aumento dos investimentos privados e infla\u00e7\u00e3o controlada. Na realidade, essa estrat\u00e9gia dificulta tais resultados, que dependem muito mais de demanda efetiva suficiente, mas, vale ressaltar, que mesmo se alcan\u00e7ados, n\u00e3o proporcionam sempre melhor qualidade de vida para todos, que deveria ser o prop\u00f3sito final das a\u00e7\u00f5es do governo. <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\">Mesmo considerando apenas o segmento mais organizado, os setores que avan\u00e7am e recuam fazem muita diferen\u00e7a, em termos do n\u00famero de indiv\u00edduos beneficiados. Soja e min\u00e9rio de ferro, por exemplo, t\u00eam gera\u00e7\u00e3o de emprego e efeitos em outros setores muito limitados, enquanto a constru\u00e7\u00e3o \u00e9 grande geradora de empregos diretos, demandante de um amplo setor de insumos, aumenta o capital fixo da economia, inclusive em infraestrutura, que viabiliza muitos investimentos privados.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\">Ainda assim, maior dinamismo em setores que alcancem mais indiv\u00edduos ainda n\u00e3o \u00e9 o suficiente, no caso do Brasil. A profunda desigualdade que persiste aqui, legado de s\u00e9culos de escravid\u00e3o, \u00e9 materializada mantendo a maioria das pessoas desconectadas ou precariamente conectadas com a din\u00e2mica daquele segmento mais organizado da economia, numa situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 identificada como uma Bel\u00edndia \u2013 uma pequena B\u00e9lgica sobreposta a uma grande \u00cdndia. Nessas circunst\u00e2ncias, a pol\u00edtica econ\u00f4mica precisa ir muito al\u00e9m das tradicionais pol\u00edticas fiscal, monet\u00e1ria e cambial. \u00c9 preciso medidas mais localizadas, com incentivos e suportes para emancipar comunidades da depend\u00eancia de pol\u00edticas assistenciais.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> Essa situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ser revertida, ainda que de forma muito gradual, com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 e em v\u00e1rios governos posteriores. Dentre as diversas a\u00e7\u00f5es, vale mencionar (i) a pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo, com importantes rebatimentos nas curvas salariais das empresas e no setor informal; (ii) a expans\u00e3o de escolas e universidades p\u00fablicas, assim como do financiamento a estudantes no ensino superior privado; (iii) a cria\u00e7\u00e3o e fortalecimento do SUS; (iv) o programa de habita\u00e7\u00e3o popular, Minha Casa Minha Vida, e o de infraestrutura, Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento, ambos trazendo grande expans\u00e3o para o setor econ\u00f4mica e socialmente estrat\u00e9gico da constru\u00e7\u00e3o. Todavia, as eleva\u00e7\u00f5es na remunera\u00e7\u00e3o do trabalho e nos gastos p\u00fablicos ocorridas nesse per\u00edodo comprimiram os retornos sobre o capital em v\u00e1rios setores, sempre acostumados com taxas absurdamente altas.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> Precisamos que os empres\u00e1rios se habituem com retornos mais civilizados, nos n\u00edveis vigentes em economias mais desenvolvidas, o que se torna mais fact\u00edvel com as redu\u00e7\u00f5es nos retornos das aplica\u00e7\u00f5es financeiras. Tamb\u00e9m precisamos de condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis para maior efici\u00eancia e produtividade na produ\u00e7\u00e3o e no investimento, com melhor infraestrutura, setor p\u00fablico mais eficiente e institui\u00e7\u00f5es mais adequadas. Infelizmente, as reformas que v\u00eam sendo propostas nos \u00faltimos anos n\u00e3o s\u00e3o nesse sentido, mas sempre buscam reverter as melhorias alcan\u00e7adas pela popula\u00e7\u00e3o de menor renda, criando condi\u00e7\u00f5es para baixar remunera\u00e7\u00f5es do trabalho e gastos p\u00fablicos que beneficiam essa parcela. Assim ocorreu com os tetos constitucionais para os gastos, reforma trabalhista, reforma da previd\u00eancia e proposta de reforma administrativa.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\">O argumento do governo, de que o endividamento p\u00fablico estaria em seu limite m\u00e1ximo, prestes a desencadear um caos financeiro, com profundos efeitos recessivos e inflacion\u00e1rios, n\u00e3o tem qualquer sustenta\u00e7\u00e3o nas ideias econ\u00f4micas que atualmente predominam internacionalmente. At\u00e9 o governo dos EUA, a maior na\u00e7\u00e3o liberal do mundo, est\u00e1 propondo plano de endividamento e gastos p\u00fablicos em escala que n\u00e3o ocorria desde a Segunda Guerra Mundial. Assim como naquele pa\u00eds, os reais limites est\u00e3o na capacidade produtiva ociosa vigente, o que claramente \u00e9 suficiente, neste momento, para acomodar novo aux\u00edlio emergencial, sem a necessidade de cortes de gastos p\u00fablicos.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\">Expans\u00f5es no endividamento p\u00fablico podem causar mais volatilidade de ativos no mercado financeiro e de capitais. Em particular, podem elevar as avalia\u00e7\u00f5es de risco dos detentores dessa d\u00edvida, levando a maiores taxas de juros. Assim, o custo de capital dos projetos ficar\u00e1 menos favor\u00e1vel. Contudo esse custo n\u00e3o seria o \u00fanico determinante das decis\u00f5es de investimento. Uma melhor infraestrutura aumenta o retorno de muitos projetos e demanda insuficiente pelo pr\u00f3prio produto impede a implementa\u00e7\u00e3o de qualquer um deles. A equipe econ\u00f4mica sabe disso, mas, confrontada, apresenta uma outra argumenta\u00e7\u00e3o, aquela de reduzir o tamanho e a a\u00e7\u00e3o do Estado para minimizar corrup\u00e7\u00e3o e inefici\u00eancia. De fato, estes s\u00e3o desafios que precisamos enfrentar, mas sem desmontar o estado de bem estar social que come\u00e7amos a construir.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p align=\"justify\"><strong>Fernando de Aquino Fonseca Neto \u00e9 doutor em Economia pela Universidade de Bras\u00edlia e coordenador da Comiss\u00e3o de Pol\u00edtica Econ\u00f4mica do Cofecon. Artigo originalmente publicado na Carta Capital.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":11810,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-14322","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/14322"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=14322"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/14322\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/11810"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=14322"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=14322"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=14322"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}