{"id":13686,"date":"2020-12-29T08:55:13","date_gmt":"2020-12-29T11:55:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=13686"},"modified":"2020-12-29T08:55:13","modified_gmt":"2020-12-29T11:55:13","slug":"artigo-o-sui-generis-ano-de-2020-e-as-perspectivas-para-2021","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=13686","title":{"rendered":"Artigo &#8211; O sui generis ano de 2020 e as perspectivas para 2021"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Thiago de Moraes Moreira &#8211; Consultor em planejamento estrat\u00e9gico e professor do CORECON\/RJ e do IBMEC\/RJ.<\/em><\/p>\n<p>(Artigo originalmente publicado na <a href=\"http:\/\/cofecon.org.br\/downloads\/revistas\/2020\/capa38.pdf\"><strong>38\u00aa edi\u00e7\u00e3o da revista Economistas<\/strong><\/a>)<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Quando no fim de 2019 os economistas faziam seus progn\u00f3sticos para o ano seguinte, nenhum deles poderia imaginar que 2020 pudesse ser o que foi. Infelizmente, este ano ser\u00e1 para sempre lembrado pela trag\u00e9dia humanit\u00e1ria causada pela pandemia da COVID-19. Al\u00e9m das mais de 1 milh\u00e3o de vidas perdidas em todo o mundo, a pandemia gerou uma recess\u00e3o global poucas vezes vista na hist\u00f3ria econ\u00f4mica, compat\u00edvel com per\u00edodos de guerra. Trata-se de uma queda muito maior do que aquelas provocadas pelas crises financeiras, j\u00e1 bem conhecidas entre os economistas. \u00c0 t\u00edtulo de compara\u00e7\u00e3o, a recess\u00e3o causada pela pandemia \u00e9 de ordem expressivamente maior do que a causada pela \u00faltima grande crise financeira internacional de 2008\/2009, a maior desde a Grande Depress\u00e3o de 1929.<\/p>\n<p>Em 2020, segundo o <em>World Economic Outlook (WEO)<\/em> divulgado no \u00faltimo m\u00eas de outubro pelo Fundo Monet\u00e1rio Interacional (FMI), o PIB mundial deve registrar uma queda de cerca de -4,4%, significativamente maior que a retra\u00e7\u00e3o de -0,08% ocorrida em 2009. \u00c9 interessante notar que o mesmo FMI, no mesmo <em>WEO<\/em> divulgado no in\u00edcio de 2020, previa uma expans\u00e3o no PIB global de 3,3%. As necess\u00e1rias medidas de isolamento social, que levaram ao fechamento de diversas atividades econ\u00f4micas, representaram um enorme choque de oferta, combinado a outro violento choque de demanda causado pelas restri\u00e7\u00f5es \u00e0 circula\u00e7\u00e3o das pessoas e pela consequente forte queda na renda dos trabalhadores, em particular dos setores informais.<\/p>\n<p>Infelizmente, o Brasil aparece como personagem de destaque neste triste cap\u00edtulo da hist\u00f3ria, sendo o segundo pa\u00eds com o maior n\u00famero de v\u00edtimas fatais da pandemia (mais de 170 mil). No campo econ\u00f4mico, o PIB brasileiro deve registrar uma retra\u00e7\u00e3o acima da m\u00e9dia global, a maior j\u00e1 computada pelas estat\u00edsticas oficiais.<\/p>\n<p>No entanto, chegamos ao fim de 2020 a uma situa\u00e7\u00e3o bastante peculiar no Brasil. A despeito da enorme trag\u00e9dia humana e econ\u00f4mica, denota-se uma \u201cestranha\u201d dissemina\u00e7\u00e3o de otimismo, fundamentado em uma aparente s\u00f3lida trajet\u00f3ria de recupera\u00e7\u00e3o. De fato, ap\u00f3s o tombo recorde na atividade econ\u00f4mica em abril, as pesquisas apontam para uma robusta acelera\u00e7\u00e3o em segmentos importantes. No acumulado de abril a setembro, segundo o IBGE, o volume produzido pela ind\u00fastria geral, j\u00e1 descontados os efeitos sazonais, registrou expans\u00e3o de 37,5%, o que permitiu n\u00e3o apenas recuperar o n\u00edvel pr\u00e9-pandemia, mas ultrapassa-lo e alcan\u00e7ar o maior patamar desde agosto de 2018.<\/p>\n<p>No caso do com\u00e9rcio, os dados do IBGE revelam que o volume das vendas do chamado varejo ampliado (que inclui os ve\u00edculos, autope\u00e7as e material de constru\u00e7\u00e3o), cresceu entre abril e setembro a um ritmo ainda maior, com varia\u00e7\u00e3o acumulada de 45,8%, tamb\u00e9m na s\u00e9rie dessazonalizada. Este bom desempenho do com\u00e9rcio fez com que o \u00edndice de com\u00e9rcio atingisse em setembro seu valor mais elevado desde o final de 2014.<\/p>\n<p>Conforme j\u00e1 esperado, o setor de servi\u00e7os, no qual h\u00e1 diversas atividades que envolve maior contato e intera\u00e7\u00e3o entre pessoas (tais como hotelaria, bares e restaurantes, entretenimento, atividades esportivas e culturais, entre outras), apresentou um ritmo de recupera\u00e7\u00e3o bem mais lento. De abril a setembro, a expans\u00e3o acumulada foi de apenas 12%, estando ainda abaixo dos n\u00edveis pr\u00e9-pandemia.<\/p>\n<p>Neste ambiente econ\u00f4mico bastante at\u00edpico, identifica-se um movimento que podemos denominar de \u201c<em>overshooting<\/em> de expectativas\u201d. Uma das principais refer\u00eancias internacionais para a medi\u00e7\u00e3o do grau de confian\u00e7a \u00e9 o chamado <em>Purchasing Manager\u00b4s Index<\/em> (PMI), elaborado pela consultoria <em>IHS Markit<\/em> para diversos pa\u00edses, sendo calculado com base em respostas de empres\u00e1rios a respeito de diversos aspectos do ambiente de neg\u00f3cios (fornecedores, clientes, estoques, encomendas etc). O valor 50 do PMI representa o marco divisor entre otimismo e pessimismo. O PMI composto (ind\u00fastria e servi\u00e7os) da economia brasileira atingiu seu recorde hist\u00f3rico, registrando a marca de 55,9 na \u00faltima leitura de outubro. \u00c9 realmente <em>sui generis<\/em> imaginar que no meio da maior crise j\u00e1 registrada, o PMI atinja tais n\u00edveis, superiores inclusive ao que se observa na China, a \u00fanica grande economia que registrar\u00e1 crescimento em 2020. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Apesar do crescente otimismo, a tarefa de projetar o que est\u00e1 por vir em 2021 requer entendermos em mais detalhes os elementos que suportaram esta recupera\u00e7\u00e3o, destacando em que condi\u00e7\u00f5es tal trajet\u00f3ria expansiva poderia ser sustentada, bem como as fragilidades que podem mais uma vez frustrar as expectativas.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica macroecon\u00f4mica expansionista, outra caracter\u00edstica <em>sui generis<\/em> de 2020 dado o perfil ortodoxo-liberal da atual equipe econ\u00f4mica, teve um papel decisivo para os resultados mencionados. Primeiramente, faz-se necess\u00e1rio destacar o expansionismo fiscal decorrente da eleva\u00e7\u00e3o das despesas governamentais na forma de transfer\u00eancias de renda \u00e0s fam\u00edlias mais vulner\u00e1veis, ou seja, a chamada pol\u00edtica do aux\u00edlio emergencial vigente desde abril.<\/p>\n<p>At\u00e9 dezembro as despesas totais com o aux\u00edlio emergencial devem atingir um montante aproximado de R$ 350 bilh\u00f5es. Para se ter uma ideia da magnitude do que isso representa, um dos maiores programas de transfer\u00eancias de renda no Brasil, o Bolsa Fam\u00edlia, no ano de 2019 transferiu recursos na ordem de 30 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Com base nas estat\u00edsticas de distribui\u00e7\u00e3o de renda do pa\u00eds, denota-se que, de fato, o valor b\u00e1sico de R$ 600 superou a renda efetiva mensal que uma parte expressiva da popula\u00e7\u00e3o brasileira estava habituada a receber. Segundo dados da \u00faltima \u201cS\u00edntese de Indicadores Sociais\u201d do IBGE referente a 2019, cerca de 25% da popula\u00e7\u00e3o brasileira ganhava mensalmente menos de R$450 (refer\u00eancia para a linha de pobreza do Banco Mundial), sendo a maior parte concentrada nas regi\u00f5es Norte e Nordeste.<\/p>\n<p>Isto significa que para mais de 50 milh\u00f5es de brasileiros, o aux\u00edlio emergencial representou n\u00e3o apenas uma ajuda para o atendimento de necessidades b\u00e1sicas durante a pandemia, mas viabilizou um aumento significativo no poder de compra. Essa situa\u00e7\u00e3o se traduziu em um grande choque positivo sobre o consumo privado.<\/p>\n<p>Dessa forma, \u00e9 tamb\u00e9m s<em>ui generis <\/em>notar que no ano de maior queda no PIB (e, portanto, da renda agregada) da hist\u00f3ria, os indicadores que medem a pobreza no pa\u00eds tenham registrado melhora. Segundo o IBRE\/FGV, o percentual de brasileiros abaixo da linha de pobreza caiu de 25% para algo em torno de 18% em agosto de 2020, o que fez com os indicadores de concentra\u00e7\u00e3o de renda tamb\u00e9m fossem reduzidos.<\/p>\n<p>Contudo, a sustenta\u00e7\u00e3o da renda e do poder de compra dos mais vulner\u00e1veis ap\u00f3s a retirada do aux\u00edlio a partir do ano que vem s\u00f3 seria poss\u00edvel caso o mercado de trabalho mostrasse uma recupera\u00e7\u00e3o mais robusta, o que at\u00e9 agora n\u00e3o aconteceu. Os principais respons\u00e1veis pelos empregos no pa\u00eds est\u00e3o nos mais variados tipos de servi\u00e7os, nos quais concentram-se as micro e pequenas empresas mais afetadas pela pandemia, e ainda se encontram em grandes dificuldades.<\/p>\n<p>Embora o com\u00e9rcio e a ind\u00fastria geral sejam importantes empregadores, estas atividades somadas representam apenas 31% dos empregos totais (formais e informais) do pa\u00eds, segundo a PNAD Cont\u00ednua do IBGE relativa a agosto de 2020. No mesmo per\u00edodo em que ocorreu a forte recupera\u00e7\u00e3o na ind\u00fastria e no com\u00e9rcio, o n\u00famero de pessoas ocupadas no pa\u00eds caiu de 89,2 milh\u00f5es para 81,6 milh\u00f5es, entre abril e agosto. Com isso, a taxa de desemprego tamb\u00e9m aumentou neste per\u00edodo, de 12,5% para 14,5%. O aumento no desemprego seria muito maior caso n\u00e3o houvesse a redu\u00e7\u00e3o da chamada \u201cFor\u00e7a de Trabalho\u201d. Este conceito corresponde ao grupo composto pelas pessoas ocupadas e aquelas que est\u00e3o em busca de algum posto de trabalho, mas n\u00e3o est\u00e3o ocupadas. Aqueles que deixaram de procurar emprego em fun\u00e7\u00e3o da pandemia sa\u00edram da \u201cFor\u00e7a de Trabalho\u201d e, portanto, deixaram tamb\u00e9m de estarem formalmente desempregados. Caso a \u201cFor\u00e7a de Trabalho\u201d tivesse crescido no ritmo da chamada \u201cPopula\u00e7\u00e3o em Idade de Trabalhar\u201d, chegar\u00edamos ao m\u00eas de agosto a um total de aproximadamente 106,4 milh\u00f5es, 10,9 milh\u00f5es a mais do que o n\u00famero reportado pela PNAD. Com a volta deste grande contingente ao mercado de trabalho, muitos n\u00e3o devem encontrar coloca\u00e7\u00e3o, o que potencialmente levaria a taxa de desemprego para n\u00edveis pr\u00f3ximos de 23%.<\/p>\n<p>Portanto, um aprendizado importante da pandemia \u00e9 justamente o de que uma pol\u00edtica fiscal expansionista calcada na transfer\u00eancia de renda pode n\u00e3o ser suficiente para evitar deteriora\u00e7\u00f5es no mercado de trabalho. Como pol\u00edticas de preserva\u00e7\u00e3o\/gera\u00e7\u00e3o de emprego, outras a\u00e7\u00f5es fiscais seriam mais importantes, tais como a concess\u00e3o de cr\u00e9ditos\/subs\u00eddios, principalmente \u00e0s micro e pequenas empresas, ou um programa de investimentos p\u00fablicos em infraestrutura, os quais envolvem a demanda por atividades mais intensivas em emprego, como a constru\u00e7\u00e3o civil.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Outra caracter\u00edstica importante do expansionismo macroecon\u00f4mico durante a pandemia est\u00e1 relacionada a outras duas vari\u00e1veis econ\u00f4micas fundamentais, quais sejam: a taxa de c\u00e2mbio e a taxa de juros. Em 2020, houve uma desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda brasileira que mudou o patamar de flutua\u00e7\u00e3o do c\u00e2mbio, combinada a seguidas redu\u00e7\u00f5es na taxa b\u00e1sica de juros (SELIC), que alcan\u00e7ou m\u00ednimas hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>A taxa de c\u00e2mbio brasileira j\u00e1 vinha apresentando uma tend\u00eancia de desvaloriza\u00e7\u00e3o desde o fim de 2014, saltando de uma m\u00e9dia de R$\/US$ 2,35 para R$\/US$ 3,34 em 2015. Com um comportamento bastante vol\u00e1til desde ent\u00e3o, encerrou o ano de 2019 com uma m\u00e9dia de R$\/US$ 3,94. Com base na observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica dos fluxos de com\u00e9rcio exterior e da produ\u00e7\u00e3o industrial, pode-se dizer que esta din\u00e2mica cambial, embora tenha favorecido as exporta\u00e7\u00f5es, foi insuficiente para estimular a produ\u00e7\u00e3o industrial frente \u00e0 concorr\u00eancia com as importa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quanto as exporta\u00e7\u00f5es, a despeito de um crescimento mais expressivo nas vendas de produtos prim\u00e1rios (22,3% no acumulado 2015\/19), as vendas externas dos bens manufaturados tamb\u00e9m registraram expans\u00e3o, de 7% neste mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>No entanto, o desempenho das exporta\u00e7\u00f5es n\u00e3o garantiu um crescimento da produ\u00e7\u00e3o industrial como um todo. De 2015 a 2019, a produ\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria geral sofreu uma varia\u00e7\u00e3o acumulada de -4,2%, enquanto as importa\u00e7\u00f5es cresceram 6,4%, ambas em termos reais. Gostaria aqui de destacar os produtos com maior peso relativo, tanto no consolidado da produ\u00e7\u00e3o industrial quanto das importa\u00e7\u00f5es: os bens intermedi\u00e1rios. Vale dizer que estes bens cumprem um papel diferenciado no sistema produtivo, na medida em que s\u00e3o os respons\u00e1veis pelos elos entre as cadeias produtivas. Neste sentido, quando este segmento se enfraquece, os efeitos multiplicadores de uma varia\u00e7\u00e3o positiva na demanda final se reduzem, isto \u00e9, a propaga\u00e7\u00e3o dos efeitos positivos sobre a atividade industrial por meio dos encadeamentos produtivos se arrefece (HIRSCHMAN, 1958). A produ\u00e7\u00e3o dos bens intermedi\u00e1rios no Brasil encolheu -6,8% entre 2015 e 2019, ao mesmo tempo em que as importa\u00e7\u00f5es destes bens se expandiram 11%. O enfraquecimento do setor intermedi\u00e1rio \u00e9 chave na explica\u00e7\u00e3o sobre as cont\u00ednuas quedas da atividade industrial a despeito da modesta recupera\u00e7\u00e3o na demanda final entre 2017 e 2019.<\/p>\n<p>Com a deflagra\u00e7\u00e3o da pandemia no pa\u00eds, a moeda brasileira, que em janeiro de 2020 estava cotada \u00e0 m\u00e9dia de R$\/US$ 4,13, deu um novo grande salto, para R$\/US$ 5,33 em abril. Desde ent\u00e3o, as m\u00e9dias mensais v\u00eam oscilando entre R$\/US$ 5,20 e R$\/US$ 5,60. Os dados da economia real parecem indicar que este patamar cambial passou finalmente a beneficiar n\u00e3o apenas os bens exportados, mas tamb\u00e9m a tornar a produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica mais competitiva frente \u00e0s importa\u00e7\u00f5es, em particular dos bens intermedi\u00e1rios<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>A \u00faltima pesquisa industrial do IBGE mostra que a produ\u00e7\u00e3o de bens intermedi\u00e1rios de setembro de 2020 superou em 5,5% o volume produzido de setembro do ano passado, o melhor desempenho entre todas as demais categorias de uso, inclusive quando comparado aos bens de consumo n\u00e3o dur\u00e1veis (3,4%), os quais foram os mais diretamente beneficiados pelo incremento na renda propiciado pelo aux\u00edlio emergencial. A produ\u00e7\u00e3o dos bens dur\u00e1veis de consumo tamb\u00e9m cresceu, com expans\u00e3o de 2,1% nesta mesma base de compara\u00e7\u00e3o. O bom desempenho da ind\u00fastria de bens intermedi\u00e1rios (metalurgia, borracha, pl\u00e1stico, papel e celulose, qu\u00edmicos) potencializou os efeitos positivos derivados da recupera\u00e7\u00e3o no consumo. A maior competitividade da produ\u00e7\u00e3o nacional fica evidenciada quando se compara com os volumes de importa\u00e7\u00e3o no mesmo m\u00eas de setembro, bem aqu\u00e9m do que se observava h\u00e1 um ano (-8,9% dos intermedi\u00e1rios, -18,6% dos dur\u00e1veis e -3,7% dos n\u00e3o dur\u00e1veis).<\/p>\n<p>Por fim, vale ressaltar a din\u00e2mica da taxa de juros. As redu\u00e7\u00f5es mais agressivas na taxa b\u00e1sica (SELIC) a partir de mar\u00e7o, que levaram para o patamar m\u00ednimo hist\u00f3rico de 2% ao ano, al\u00e9m de contribu\u00edrem para que o c\u00e2mbio fosse depreciado ao n\u00edvel que confere maior competitividade \u00e0 ind\u00fastria, tamb\u00e9m vem sendo importante para estimular a demanda dos bens dur\u00e1veis de consumo mais sens\u00edveis ao cr\u00e9dito, tais como ve\u00edculos, m\u00f3veis, eletr\u00f4nicos e eletrodom\u00e9sticos. De todo modo, \u00e9 importante lembrar que a participa\u00e7\u00e3o dos bens dur\u00e1veis no consumo total \u00e9 da ordem de apenas 10%, o que limita sua capacidade de liderarem uma trajet\u00f3ria de crescimento do consumo. A despeito do cr\u00e9dito ser importante para impulsionar trajet\u00f3rias expansivas, a sustenta\u00e7\u00e3o de um consumo crescente depende mais da demanda pelos bens e servi\u00e7os vinculados \u00e0 renda.<\/p>\n<p>Em resumo, a r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o pode ser explicada pelo choque positivo na renda dos mais vulner\u00e1veis, o qual viabilizou um impulso importante na demanda final, potencializada pelas melhores condi\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito. Em um contexto de maior competitividade da produ\u00e7\u00e3o nacional em fun\u00e7\u00e3o de um c\u00e2mbio bastante depreciado, a maior parte do crescimento de consumo foi atendida por produ\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Com base nos elementos discutidos, o progn\u00f3stico para 2021 n\u00e3o \u00e9 muito favor\u00e1vel. Os fatores macroecon\u00f4micos respons\u00e1veis pela recupera\u00e7\u00e3o em 2020 dever\u00e3o ser, em grande medida, revertidos. Vale ressaltar que este progn\u00f3stico n\u00e3o considera a hip\u00f3tese de uma segunda onda da pandemia no Brasil. Uma eventual necessidade de novas medidas restritivas e de fechamento de atividades levaria a dificuldades ainda maiores.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 trajet\u00f3ria da renda dos mais pobres, principais respons\u00e1veis pela recupera\u00e7\u00e3o no consumo, as perspectivas s\u00e3o negativas. Al\u00e9m do mercado de trabalho n\u00e3o esbo\u00e7ar recupera\u00e7\u00e3o, o governo vem afirmando sua inten\u00e7\u00e3o em retomar a agenda de r\u00edgida austeridade fiscal, o que, na melhor das hip\u00f3teses, viabilizaria um programa social de transfer\u00eancia de renda que n\u00e3o chegaria a um quinto do que foi o aux\u00edlio emergencial. \u00a0<\/p>\n<p>Quanto aos demais aspectos macroecon\u00f4micos, \u00e9 esperado que o c\u00e2mbio volte a se apreciar e os juros apresentem alguma eleva\u00e7\u00e3o, ainda que modesta. Em um cen\u00e1rio de retorno ao regime fiscal calcado no teto de gastos, redu\u00e7\u00e3o na percep\u00e7\u00e3o de risco devido ao maior controle da pandemia com a vacina, elevada liquidez internacional, volta \u00e0 normalidade democr\u00e1tica nos EUA e fortalecimento do multilateralismo, o pa\u00eds deve voltar a receber um maior fluxo de divisas estrangeiras. A prov\u00e1vel valoriza\u00e7\u00e3o do c\u00e2mbio voltaria a prejudicar a competitividade da produ\u00e7\u00e3o nacional, enfraquecendo um dos principais elementos que suportaram a recupera\u00e7\u00e3o em 2020. Quanto \u00e0 taxa de juros, uma vez que se projeta uma acelera\u00e7\u00e3o na infla\u00e7\u00e3o, e dado o perfil atual do Banco Central, espera-se tamb\u00e9m o retorno \u00e0s eleva\u00e7\u00f5es na taxa SELIC em 2021, contribuindo tamb\u00e9m para que a moeda brasileira volte a se apreciar.<\/p>\n<p>Em suma, a esperada volta \u00e0 \u201cnormalidade\u201d em 2021 deve provocar uma guinada no expansionismo macroecon\u00f4mico do <em>sui generis<\/em> ano de 2020. Neste contexto, o otimismo atual deve mais uma vez se confrontar com os med\u00edocres resultados econ\u00f4micos do pr\u00e9-pandemia, aos quais j\u00e1 est\u00e1vamos habituados.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Bresser Pereira, L.C (2012): \u201cA taxa de c\u00e2mbio no centro da teoria do desenvolvimento\u201d. Estudos avan\u00e7ados.\u00a0vol.26\u00a0no.75\u00a0S\u00e3o Paulo,\u00a0maio\/ago.\u00a0<\/p>\n<p>Hirschman, Albert (1958): \u00a0\u201cThe strategy of economic development. New Haven: Yale University Press.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Os resultados parecem indicar que finalmente a taxa de c\u00e2mbio esteja flutuando mais pr\u00f3xima do que a escola novo-desenvolvimentista chama de \u201ctaxa de c\u00e2mbio de equil\u00edbrio industrial\u201d, a qual se caracteriza por conferir condi\u00e7\u00f5es ison\u00f4micas de competi\u00e7\u00e3o externa para as empresas que operam no Brasil e est\u00e3o no estado da arte tecnol\u00f3gico (BRESSER PEREIRA, 2012).\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":13687,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-13686","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/13686"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=13686"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/13686\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/13687"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=13686"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=13686"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=13686"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}