{"id":10224,"date":"2020-02-27T11:38:38","date_gmt":"2020-02-27T14:38:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=10224"},"modified":"2020-02-27T11:38:38","modified_gmt":"2020-02-27T14:38:38","slug":"artigo-as-duas-peras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=10224","title":{"rendered":"Artigo &#8211; As duas peras"},"content":{"rendered":"\n<p>Em verdade, foram duas &#8220;peras&#8221; que marcaram minha inf\u00e2ncia-pr\u00e9-adolesc\u00eancia.&nbsp;A primeira foi a fruta propriamente dita, portanto, pera, que era um produto pouco consumido por n\u00f3s devido as limita\u00e7\u00f5es e restri\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias da fam\u00edlia.&nbsp;Normalmente, consum\u00edamos laranja e banana, mas com o rigor no consumo capitaneado pelos nossos pais, comi, pela primeira vez essa fruta, como um monge.<\/p>\n<p>A segunda pera, numa redu\u00e7\u00e3o vernacular irregular regionalizada, foi a primeira piraputanga fisgada, n\u00e3o por mim ou meu mano velho, mas, sim, pelo nosso finado Velho Zagueiro.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos meu irm\u00e3o e eu pescando no rio Coxip\u00f3, nas instala\u00e7\u00f5es do saudoso Sayonara, enquanto nosso pai jogava bola.&nbsp;Durante o intervalo da pelada domingueira, e num termo que nosso pai dizia, &#8220;brota&#8221; ele na beira do rio onde pesc\u00e1vamos, ali\u00e1s, tent\u00e1vamos pegar alguma coisa.&nbsp;Ele perguntou se hav\u00edamos pego algum peixe, respondemos que n\u00e3o.&nbsp;Ele disse, espera a\u00ed, d\u00e1-me essa vara (de bambu) que eu vou mostrar para voc\u00eas como pegar uma &#8220;pera&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o deu outra. Ele ajeitou a isca de carne no anzol, seguido de uma pequena chumbada, arrumou a linhada ao ch\u00e3o e arremessou pra pouco mais que a metade do rio.&nbsp;Poucos minutos depois, l\u00e1 estava ele ferrando uma &#8220;pera lenhera&#8221;, uma papoula bem baitela.&nbsp;Ficou todo &#8220;posudo&#8221; contando a fa\u00e7anha, ali mesmo, \u00e0 beira do rio.<\/p>\n<p>Depois que ele voltou ao futebol, meu irm\u00e3o e eu ficamos algumas horas tentando, e nada.&nbsp;Passamos para o lambari e pequenas piabas, mas foi o suficiente para iniciarmos nossa &#8220;carreira&#8221; de pescador amador at\u00e9 os dias atuais.&nbsp;Tivemos que nos contentar com a &#8220;pera&#8221; deliciosa feita pela nossa m\u00e3e, e ele, nosso pai, n\u00e3o parava de repetir o feito ocorrido.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, repetir e insistir em fazer as coisas corretas era com ele mesmo.&nbsp;Nos disciplinou em tudo: comer, banhar, lazer, estudar, at\u00e9 mesmo, em como tirar pasta dental do tubo para n\u00e3o desperdi\u00e7ar.<\/p>\n<p>Toda essa pequena historiazinha para dizer da import\u00e2ncia da disciplina e rigor no consumo, al\u00e9m da persist\u00eancia e perseveran\u00e7a naquilo que se faz, e como dizia minha m\u00e3e, naquela \u00e9poca, fa\u00e7a bem feito, porque nessa vida tudo tem um fim.<\/p>\n<p>Disciplina no ato de consumir e agir importa para o rendimento da renda (nossos sal\u00e1rios, basicamente), que, por sua vez, proporciona a poupan\u00e7a.<\/p>\n<p>Poupan\u00e7a \u00e9 resultado da diferen\u00e7a entre renda menos consumo. Logo, em arranjo matem\u00e1tico b\u00e1sico, que \u00e9 o meu limite, renda \u00e9 consumo mais poupan\u00e7a.<\/p>\n<p>Percebam que poupan\u00e7a \u00e9, tamb\u00e9m, o consumo adiado ou o consumo futuro, entretanto, n\u00e3o \u00e9 econ\u00f4mico fazer da poupan\u00e7a apenas como um res\u00edduo da nossa renda; pelo contr\u00e1rio, ela h\u00e1 de ser um componente do nosso or\u00e7amento dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>Importante lembrar que estou referindo \u00e0 poupan\u00e7a no seu sentido &#8220;<em>lato&#8221;<\/em>, isto \u00e9, devido as v\u00e1rias formas de aplica\u00e7\u00f5es financeiras, qualquer uma delas que voc\u00ea optar j\u00e1 \u00e9 uma poupan\u00e7a, al\u00e9m, obviamente, da poupan\u00e7a tradicional.<\/p>\n<p>Portanto, o autointeresse e a autodetermina\u00e7\u00e3o nas a\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos proporcionam uma rede invis\u00edvel de coopera\u00e7\u00e3o coletiva que termina por beneficiar a todos, modernizando aqui os ensinamentos cl\u00e1ssicos de Adam Smith.<\/p>\n<p>Por fim, entre a pera fruta e a pera peixe, minha prefer\u00eancia, como um bom cuiabano, \u00e9 pelo peixe &#8211; que, ali\u00e1s, precisamos somar esfor\u00e7os para preserv\u00e1-lo, eliminando toda e qualquer forma de pesca predat\u00f3ria, e numa sugest\u00e3o ao Professor Chico Peixe, eu diria a ele para que propusesse\/estabelecesse, aos \u00f3rg\u00e3os competentes, o per\u00edodo de piracema flex\u00edvel, i.\u00e9., data de in\u00edcio fixa, como \u00e9 normalmente, mas, a data para seu encerramento poderia ser flex\u00edvel, em conformidade com os \u00edndices pluviom\u00e9tricos e n\u00edveis de \u00e1guas nos nossos rios, facilitando, dessa maneira, um ciclo de desova completo para todos os peixes, o que, certamente, preservar\u00e1 nosso consumo presente e futuro.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Ernani L\u00facio Pinto de Souza, 57, cuiabano, economista da UFMT, ms. em planejamento do desenvolvimento pela ANPEC\/NAEA\/UFPA. Foi vice-presidente do CORECON-MT.(elpz@uol.com.br)<\/strong>&nbsp;&nbsp; &nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":10240,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-10224","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10224"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10224"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10224\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/10240"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10224"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10224"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10224"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}