Em defesa da CNBB

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Em recente artigo publicado na Veja, Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda de Sarney, criticou a nota da CNBB contra a reforma da Previdência, dizendo que “o manifesto dos bispos está cheio de equívocos ao afirmar que a reforma prejudica os pobres” e que “o fracasso da reforma levaria à insolvência do governo, prejudicando os que investiram em títulos do Tesouro e nos levando de volta aos horrores da hiperinflação”.


De forma sarcástica e deselegante, Maílson afirmou ainda que “A preparação dos bispos tem mais a ver com filosofia, direito canônico e teoria eclesiástica. Eles não estudam economia”. Maílson desdenhou dos bispos, mas, ele que estudou, parece não ter aprendido muito. No artigo “Do ajuste à abertura: a economia brasileira em transição para os Anos 90”, Regis Bonelli e Elena Landau (PUC/RJ, 1990) nos mostram o legado de sua política “feijão com arroz”: inflação de incríveis 120.249,7% em seus 27 meses na Fazenda; queda do PIB per capita de 0,5% no período; déficit fiscal (conceito operacional) de 4,3% do PIB em 1988 e de 12,4% em 1989; crescimento de 158% nos gastos com juros da dívida pública em 1989; e salário Mínimo equivalente a US$ 70,00.


A CNBB, em sua nota, afirma corretamente que “a Previdência Social possui uma matriz ética, voltada para a proteção social dos mais vulneráveis (idosos, enfermos, acidentados)”, que o governo ‘soluciona o problema’ rebaixando direitos dos mais necessitados (trabalhadores rurais, mulheres, viúvas e beneficiários do BPC) e conclui que “nenhuma solução pode prescindir de valores éticos-sociais e solidários, reduzindo a Previdência a uma questão econômica”.


Ao tentar desqualificar os bispos e a própria CNBB, Maílson reduz a discussão à necessidade de cortar gastos, mesmo que isso signifique piorar a condição de vida de milhões de brasileiros e revela a que serve: preservar os ganhos dos que investiram em títulos do Tesouro.


 

Júlio Miragaya, Presidente do Conselho Federal de Economia