Palestra do presidente Júlio Miragaya na CNBB

Tamanho da Letra

ESLIDEO presidente do Conselho Federal de Economia, Júlio Miragaya, participou nesta terça-feira, 21 de março, de um debate sobre conjuntura econômica durante o encontro do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O evento reuniu a presidência da entidade, os presidentes dos 18 regionais os presidentes das Comissões Episcopais de pastoral, os representantes de bispos e assessores. Mais de 70 pessoas prestigiaram o evento, que encheu o auditório. A palestra de Miragaya respondeu pela prática do Conselho Permanente da CNBB que, em suas reuniões ordinárias, sempre dedica espaço para a análise da conjuntura brasileira.

Miragaya iniciou sua palestra informando que a ciência econômica é, sobretudo, uma ciência social, e que embora os economistas sejam mais lembrados em atividades ligadas ao mercado financeiro, são profissionais com uma grande consciência social. Criticou a reforma da Previdência por ser feita com muita pressa e afirmou que é preciso levar este debate a outras instâncias para que a população seja realmente informada sobre o que está acontecendo.

Ao falar sobre as razões da crise atual, iniciou com o cenário internacional e apontou para a excessiva financeirização da economia e a crescente concentração da renda e da riqueza. “Muito do que acontece em Wall Street nada tem a ver com facilitar o investimento em atividades produtivas, e este deveria ser o grande papel dos bancos”, apontou Miragaya.

Passando para o plano nacional, o presidente do Cofecon afirmou que há alguns mitos que são divulgados ao falar sobre a crise. “Critica-se a nova matriz econômica dos governos Lula e Dilma, que teria abandonado o tripé composto pelo câmbio flutuante, superávit primário e metas de inflação. Eu gostaria muito que isso tivesse acontecido, mas não aconteceu”, afirmou Miragaya.

Outra razão seria o aumento da carga tributária. “Não cresce desde 2002. Ela cresceu para atender demandas da Constituição Federal de 1988”, argumentou Miragaya. O economista ainda apontou dois números, um para retrucar o argumento do excesso de gastos com servidores públicos (4,7% do PIB) e quanto ao excesso de servidores (8% da população ocupada no Brasil, enquanto em outros países este número supera 15%).

Ao falar das reais razões da crise, afirmou que há uma incompatibilidade entre o modelo de proteção social adotado em 1988 e o modelo tributário vigente no país. Também criticou as concessões realizadas a banqueiros e grandes empresários buscando estimular a economia e garantir apoio político para a reeleição de Dilma Rousseff. “Em 2014 o capital financeiro passou a exigir um ajuste, com retirada de direitos e limite para os gastos sociais. Em 2015 foi nomeado o ministro Joaquim Levy. A base social do governo reagiu. O capital financeiro percebeu que Dilma não conseguiria entregar o ajuste exigido, enquadrou o Legislativo e o Judiciário e aí aconteceu a troca de governo”.

Também houve críticas ao governo de Dilma na gestão da política macroeconômica. “Alguns destes equívocos ela até herdou do Lula. Juros altos foram utilizados para combater uma inflação que não era de demanda. O Real apreciado foi usado para combater a inflação, mas acabou afetando a indústria – hoje, 60% da nossa pauta de exportação é de produtos primários. E, além disso, grandes bancos manipulavam o câmbio e ganhavam bilhões com isso. A política de isenções, desonerações e crédito subsidiado levou à crise fiscal”, apresentou Miragaya.

Ao falar de soluções para a crise, o presidente do Cofecon primeiro falou sobre a proposta do capital financeiro: ajuste fiscal e reformas. “Mas a reforma que realmente precisamos fazer é outra, começando pela mudança do modelo tributário, que está muito concentrado na produção e no consumo, atingindo pouco a renda e a riqueza”, apontou o economista, elencando algumas medidas específicas. “É preciso preservar e ampliar os direitos sociais e as políticas públicas de valorização do trabalho. Foi isso o que permitiu ao país ter um crescimento acelerado na década passada”. Miragaya também defendeu a redução de juros e a depreciação do Real e falou sobre o combate à concentração da renda e da riqueza – inclusive recordando que a CNBB tem participado da campanha que o Cofecon deverá lançar, em breve, em nível nacional.

Por último, ao falar sobre previsões para 2017, Miragaya apontou para um PIB com crescimento de 0,5% ou inferior; desemprego de 13% a 14%; inflação entre 4% e 5%; déficit primário de R$ 180 bilhões e déficit nominal de R$ 550 bilhões; transações correntes com déficit de 1% do PIB; queda no rendimento médio e aumento da desigualdade social; e desnacionalização de setores estratégicos.


(*) Jornalista do Cofecon
O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Escrito por Manoel Castanho (*)