Entrevista: Clóvis Luiz Schaeffer

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schaefferClóvis Luiz Schaeffer é um pequeno empresário da cidade de São José do Hortêncio, cost no Rio Grande do Sul. Desde 2009 é também o prefeito da cidade de aproximadamente 5.000 habitantes, salve localizada a 56 quilômetros de Porto Alegre. "Mas não pretendo viver da política. Eu estou político", comenta. Schaeffer recebeu, na abertura do XXII SINCE, o Prêmio Brasil de Economia na categoria Gestor Municipal, com um índice de 0,658 (entre 0 e 1) - índice este calculado pela Confederação Nacional dos Municípios nas áreas Fiscal, Social e de Gestão. O prefeito falou ao COFECON sobre o prêmio, o trabalho realizado desde a emancipação de São José do Hortêncio (em 1988) e as dificuldades de administrar uma cidade pequena.

COFECON: Quais são as dificuldades de administrar uma cidade pequena?

Schaeffer: Como em todas as cidades, basicamente, poder fazer um bom trabalho dentro daquele recurso disponível que se tem. Um dos problemas das pequenas cidades é a questão da parte financeira, nós temos menos receitas próprias. As receitas são as de repasse constitucional, que são do FPM (Fundo de Participação dos Municípios) e ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Então isso nos torna menos autônomos em dinheiro.

COFECON: Além dos repasses, que outras características tornam mais difícil ou mais fácil a administração de uma cidade pequena?

Schaeffer: A questão numa cidade pequena é que ela não tem uma estrutura administrativa tão grande, tão perfeita, não tem tantos técnicos para fazer um trabalho de frente antes do prefeito. Numa cidade pequena as coisas batem diretamente no prefeito. Todos conhecem o prefeito. Todos se veem no direito de falar com o prefeito, argumentar com o prefeito e pedir ao prefeito. E o prefeito, como é conhecido de todos, tem que dar satisfação a todos. Então é a maior diferença. Nós temos menos recursos, nós somos conhecidos, lidamos diretamente com o problema, diretamente com o povo e de todo jeito estamos procurando fazer um bom trabalho.

pbe02COFECON: No seu discurso (ao receber o prêmio Gestor Municipal, em 01 de setembro) o senhor falou que muitas vezes o prefeito acaba levando a fama de "pão duro" por não poder atender a todos.

Schaeffer: Na minha região eu já tenho essa fama, mas é que eu levo a administração de uma prefeitura como a de uma pequena empresa. É claro que você tem que ter uma sensibilidade social maior. Mas eu digo, se você não souber dizer não, ou se não tiver o secretário da fazenda bem ranheta, você vai ter problemas. Eu aposto com você que da minha região a metade das prefeituras - e a nossa região no Vale do Caí tem em torno de 20 prefeituras - a metade não tem 1 real disponível para investimento. Vivem do dia a dia e tem cidades até que quando têm que dar o reajuste anual não podem dar porque estão com o limite estourado. Nós não temos isso, porque temos uma filosofia de mais de 20 anos, desde que se fundou o município, de que tínhamos que trabalhar com cuidado e levar as coisas dentro do seu limite.

COFECON: E qual é o segredo para conseguir administrar a cidade sem gerar dívida?

Schaeffer: O segredo depende da pessoa. Lá nós tivemos sorte. Todos os administradores que se sucederam nestes 20 anos tiveram uma visão de não botar dinheiro fora. Nós trabalhamos em regime de caixa. Faz-se o que tem em caixa, e sempre com uma margem de recursos para eventualidades. Este é o segredo, e eleger os investimentos - porque uma cidade como a nossa ainda tem algum recurso para investimentos - e tem que ser investimentos bons. Algo que seja útil para o município, nada que seja suntuoso e nada que seja, digamos, dinheiro posto fora. É um trabalho que se dá em todos os níveis. Nós estamos enfrentando agora, e comentei com outros economistas aqui, o que estou vendo como dificuldade a médio prazo, como problema para nós: à medida em que o governo federal cria programas, cria na área da saúde, na área da educação, na área social, eles vão para a mídia, fazem um grande marketing, nos passam um bônus pequenininho e um ônus enorme deste programa que eles fizeram a propaganda, e os prefeitos têm que se virar. E aí volta e meia eles têm que aparecer aqui em Brasília com o pires na mão. E isso com o tempo, se continuar neste ritmo  - tenho visto no meu estado e estou bastante pessimista - vai inviabilizar cada vez mais os municípios.

COFECON: Na região do Caí há muitas cidades pequenas e elas dão a aparência de serem muito bem cuidadas. É um reflexo da mentalidade de lá ou tem alguma outra explicação?

Schaeffer: Creio que é cultural, nosso vale é predominantemente de colonização germânica, isso é transmitido de pai para filho, você pode ver nas casas. Desde o tempo da minha bisavó, eu me lembro, ela sempre tinha flores no jardim. O da vizinha também tinha flores. Isso é um traço cultural. Isso é muito bom e está se espalhando, outras culturas estão adotando isso também. Lá no Sul nós temos diversos exemplos de empresas que adotam canteiros, adotam trevos e fazem um trabalho em conjunto. Na minha cidade até tem cidadãos que às vezes fazem. A prefeitura troca de vez em vez as plantas e o cidadão olha e diz "está feio, a prefeitura já devia ter trocado", então ele mesmo vai lá e troca, dá uma capinada e põe uma plantinha nova.

COFECON: Para encerrar, qual a contribuição que os economistas podem dar à sua cidade?

Schaeffer: Vou abordar de outra maneira. Eu sou um grande defensor da causa municipalista. Aqui em Brasília a gente não se dá conta, nas capitais dos estados também não, mas o cidadão nasce no município, cresce no município, a primeira escola é no município, ele cuida da saúde básica no município, ele usa o transporte do município, as estradas do município, ele vive no município, trabalha no município e morre no município. Então deveria ter uma importância maior o município dentro do bolo tributário. Eu creio que na maioria das economias desenvolvidas, não só econômica mas culturalmente, o município tem predominância na repartição do bolo tributário. Aqui no Brasil isso é uma coisa muito injusta, ao contrário do que deveria ser. Nós não deveríamos estar vindo para cá, correndo atrás de recursos. Isso deveria automaticamente ser nosso, porque o dinheiro migra para cá e nós temos que lutar por ele de novo. Não é correto isso. Então o município sim, é o cidadão de verdade.
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(*) Jornalista do COFECON
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Escrito por Manoel Castanho (*)