Entrevista: Wilma Salgado

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wilmasalgadoA ex-ministra de Finanças do Equador, buy more about Wilma Salgado, veio a Brasília na última semana para participar de uma Audiência Pública na Câmara dos Deputados sobre a auditoria da dívida realizada em seu país. Participou também do seminário internacional Auditoria da Dívida na América Latina. Em entrevista ao COFECON realizada na última quinta-feira, Wilma - que é doutora em Economia - falou sobre a auditoria equatoriana e o valor do dólar, um assunto sobre o qual ela sempre chama à reflexão.


COFECON
: A auditoria da dívida no Equador aconteceu num momento em que há um governo de ruptura com o que havia antes e uma
vontade política. Sem estes dois fatores ou sem um deles teria sido possível realizar a auditoria da dívida no Equador?

Wilma Salgado: Uma auditoria oficial, impulsionada pelo governo, é algo bastante difícil, a não ser que seja um governo no qual se reconheça a necessidade de esclarecer a influência da dívida. Se há governantes que acreditam que as dívidas foram positivas para os povos e é necessário pagá-las, estes governos nunca vão promover auditorias da dívida. Então, efetivamente precisamos de um governo de mudança ou de ruptura com o que antes estava no poder no Equador.


COFECON: A auditoria no Equador foi realizada por um grupo multidisciplinar, com gente de várias correntes de pensamento e de vários países. QUal é a importância deste fato?

Wilma: Creio que o importante é que tenham participado representantes da sociedade civil e do setor oficial do próprio Equador, além de pesquisadores de outros países. Participou gente do Brasil, da Argentina, do Peru e até mesmo um belga. Diferentes países colaboraram com este esforço de pesquisa e análise da documentação oficialmente proporcionada à comissão. Creio que isto ajudou muitíssimo o desenvolvimento do trabalho e a identificação de elementos comuns a vários países. Havia advogados, especialistas no tema jurídico; antropólogos, interessados na análise do impacto social da dívida; economistas estudando o impacto econômico. Creio que este caráter multidisciplinar e internacional foi muito importante para os resultados obtidos.


COFECON: O que pode ser aprendido com a auditoria equatoriana?

Wilma: Creio que se aprende muitíssimo. Primeiro, que a dívida é basicamente um mecanismo de dominação, e eu diria, de recolonização, na medida em que através da condicionalidade associada ao manejo da dívida se reconstituiu uma série de forças de dominação, da qual participam, certamente, representantes locais. Não é uma dominação totalmente estrangeira, mas sim estrangeira com grupos que coincidem com estes interesses do capital financeiro, do capital especulativo. Especialmente porque a dívida é um destes mecanismos de extração de excedentes via financeira, reconstituindo, em conseqüência, estes mecanismos de dominação. E eles são adaptados à institucionalidade, porque através da condicionalidade propunham reformas nas instituições, reformas nas leis vigentes nos países, e reformas também na maneira de conduzir as relações sociais. Então é impressionante como através deste mecanismo financeiro da dívida externa se consegue uma readequação e uma reorientação da organização interna destas nações para benefício dos países, ou dos grupos, já que o capital financeiro estrangeiro está aliado com o capital financeiro local.


COFECON: Vários setores estrangeiros vêem Rafael Correa como uma espécie de Hugo Chávez equatoriano. Isto pode, de alguma maneira, dificultar os objetivos da auditoria no que se refere à visibilidade internacional e atitudes diante da auditoria?

Wilma: Você sabe que há uma tendência, em nível internacional, de estereotipar os governantes. Creio que o espectro de visões é muito mais diverso. A visão do presidente Correa não é exatamente a mesma que tem o presidente Hugo Chávez sobre as relações internacionais, nem a mesma do presidente Evo Morales. Talvez o que eles tenham em comum é que são governos de mudança, ou que buscam uma mudança, sem que esteja claramente predefinida qual é esta mudança, mas que vai na direção de que se recupere a soberania, a capacidade de decisão dentro de nossos países, que recupere a participação da cidadania; nisso eles podem coincidir. Mas como alcançar estes objetivos de recuperar soberania, de uma maior participação? Creio que aí está a diferença. Os estereótipos são muito gerais. Quando alguém vê as práticas concretas de cada um destes governantes, encontra diferenças importantes.
 

COFECON: A senhora sempre convida a uma reflexão sobre o dólar. O que é o dólar, na sua maneira de ver?

Wilma: Em minha maneira de ver, o dólar, uma vez que já não representa o ouro, - aqui há um ponto de inflexão. Quando o dólar representava o ouro que estava guardado (nas reservas norte-americanas), ele era o representante de um ativo de valor intrínseco. Hoje é um representante exclusivamente do poder. Neste sentido, creio que nós, como latino-americanos, podemos propor um contra-poder, que seria outra moeda que represente igualmente o que representa o dólar norte-americano, ou seja, representa o manejo do poder. Já não tem valor intrínseco, ou seja, circula e é aceito em nível mundial porque existe a garantia do Estado norte-americano de que será respeitado o valor que o dólar diz que tem. Mas igualmente podem ser postas em circulação outras moedas de outros Estados soberanos, que digam igualmente "eu ponho esta moeda em circulação e ela representa a garantia de que este pedaço de papel te permitirá o acesso a ativos". Eu acredito que por trás desta discussão sobre o que é o dólar há uma outra discussão sobre a teoria do valor, que é uma antiga discussão na Economia. No meu modo de ver, se você me perguntar qual é o capital, o capital são os que possuem os pedaços de papel e a máquina de imprimir notas ou o capital é o dono da mina? Qual é a riqueza? É neste ponto que eu sustento que quem tem a riqueza somos nós. Os investimentos estrangeiros, os donos dos papéis estão vindo atraídos pela riqueza, pelos ativos que nós possuímos, que está nas minas, na biodiversidade, em toda esta riqueza que temos aqui na região. Então nós chegamos a uma confusão: cremos que a riqueza é a máquina de imprimir notas, estamos submissos por esta moeda de um valor fictício, na minha maneira de ver. É por isso que eu proponho retomar as discussões que tiveram lugar em Breton Woods. Ali ocorreram discussões muito importantes, nas quais, por exemplo, Keynes defendeu uma câmara de compensação entre operações ativas e passivas, uma alternativa diferente do que vigora hoje, que é exclusivamente uma ditadura do dólar e de quem emite esta moeda, que são os que definem também as taxas de juros, as formas de pagamento e nos submetem a esta ditadura financeira com este pedaço de papel que é aceito por nós. Enquanto acreditarmos que este pedaço de papel representa o poder, estaremos sempre dominados por ele.


COFECON: Diante do poder do dólar e da crise financeira atual, o que os latino-americanos podemos fazer?

Wilma: Creio que neste momento devemos fazer circular mecanismos de pagamento alternativos. Em nossa história tentamos, por exemplo, os convênios de crédito recíproco que tínhamos, que foram eliminados pelas imposições do FMI. Sistemas de pagamentos alternativos, por exemplo, cartões de crédito. Se o Estado conceder, ao setor privado, cartões garantidos por estes Estados de que o saldo final será pago por cada Estado, o que vamos conseguir é diminuir a dependência dos dólares. Precisaremos de menos dólares do que precisamos agora, porque cada operação precisa ser saldada em dólares e, como conseqüência, há um fluxo muito maior desta moeda do que teríamos se pensássemos em mecanismos alternativos de financiamento e pagamento. Isto é o mais importante. Nós temos minérios, nós temos petróleo. Com base nesta riqueza podemos emitir "pagarés"1 que representem esta riqueza e que nos permitam operações em todos os mercados. Então devemos repensar o papel da moeda, o que significa a moeda, e todo o potencial que nós temos dentro de nosso território para libertar-nos da dependência deste pedaço de papel, deste "pagaré" que emite o governo norte-americano. A moeda, neste momento, como já não representa um ativo de valor intrínseco, é exatamente igual a um "pagaré".


COFECON
: Como a senhora vê a eliminação do dólar nas negociações bilaterais entre Brasil e Argentina?

Wilma: Me parece um excelente exemplo de como se pode diminuir a dependência dos dólares nas relações entre países, para evitar que elas sejam golpeadas quando há uma crise do dólar. Na crise de 1999 e nas crises de 1982 as relações bilaterais foram duramente golpeadas. Os processos de integração comercial e financeira foram reduzidos ao seu limite inferior. Estávamos na dependência de uma moeda que não temos e não controlamos. Esta busca de alternativas, como já fizeram o Brasil e a Argentina, é o que eu proponho, mas estendido a todos os países e, mais além, a levar-nos a reconhecer a riqueza e os ativos que nós temos em nossos territórios, a valorizarmos estes ativos e a emitir nós mesmos os nossos próprios "pagarés" para as transações internacionais.
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1- "Pagaré" é um termo em espanhol (traduzido literalmente: pagarei) que representa um título de crédito ou de valor, contendo a promessa incondicional de que um determinado valor será pago a outra pessoa (física ou jurídica) com um prazo definido. É a estes papéis que Wilma Salgado está comparando o dólar.
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(*) Jornalista do COFECON
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(61) 3208 1806

Escrito por Manoel Castanho (*)