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“Cenário é uma possibilidade abrangente de
futuro, elaborada segundo uma configuração
predeterminada do ambiente, para auxiliar
a organização na tomada de decisões
estratégicas”.
Historicamente, a elaboração de cenários econômicos era baseada na fundamentação técnica. Nela os recursos matemáticos e estatísticos permitiam uma previsão com significativo grau de certeza ou possibilidade. Com encaminhamento para a globalização e o domínio – com força para redirecionar a rota do planeta econômico, nem sempre com a ética e a responsabilidade desejáveis – a previsão tornou-se muito mais difícil e incerta.
O malabarismo e a corrupção, antes com freqüência bem menores no setor privado, redirecionaram-se para o setor público. Enquanto a corrupção esvazia os cofres públicos em prejuízo da estabilidade econômica (a médio e longo prazo), da qualidade dos serviços públicos, da redução da carga tributária – que permitiria às empresas maior poder competitivo e redução de custos e ao indivíduo que poderia poupar e consumir mais -, o malabarismo governamental induz as pessoas à dificuldade de percepção da realidade econômica, interpretando que “tudo é maravilha” , iludindo mais de 95% da população.
Sem aderir tanto ao pessimismo quanto ao partidarismo político, é necessário que se abordem alguns malabarismos governamentais que estão induzindo as pessoas à dificuldade de percepção dessa realidade e deixando o Brasil em desconfortável posicionamento (178ª. posição) entre os países para “fazer negócios” (2008, Relatório BIRD).
Para tornar mais objetivas estas ponderações, listaremos abaixo alguns desses
“malabarismos” ou “jogadas” feitos com muita habilidade nos últimos anos:
1. MUDANÇA DE METODOLOGIA DE CÁLCULO DO PIB – Esta magia, feita em dois momentos, aumentou o PIB em 12,75%, contaminando tanto a idéia do crescimento como a relação dos gastos, da carga tributária e outros em relação ao PIB. Não discordamos de que, sendo para melhor adequar-se à realidade, haja mudança na metodologia. Todavia, a transparência, a ética e a responsabilidade recomendam que, por algum tempo, sejam publicadas as séries históricas com os dados apurados nas duas metodologias (anterior e atual), permitindo perceber a realidade.
Não obstante essas manobras, e o potencial econômico do Brasil, o crescimento do PIB, comparado ao de outros países, especialmente China e Índia, tem sido irrisório e a relação Gastos Públicos/PIB, Carga Tributária /PIB, Dívida Pública/PIB e outros, têm crescido assustadoramente, deixando antever que “a flor do pepino” deverá aparecer em 2011, já que 2010, sendo ano político, tudo será feito para camuflar.
2. IPEA: PROIBIDA A PUBLICAÇÃO DAS INFORMAÇÕES CONJUNTURAIS – Sendo um órgão técnico, estaria aí o medo de que as informações técnicas divergissem das informações políticas? O resultado foi a demissão do presidente da entidade, que discordou da decisão política.
3. LEI 11.638 – Sob o argumento de adequação ao IFC (a Inglaterra não fez a adequação e nada perdeu), alterações tributárias facilitaram a apropriação de lucros futuros (regime de competência), não raro de realização incerta. Isto aumentou o lucro presente das estatais, inclusive pelos lucros dos Fundos de Pensão, resultando em maiores dividendos para o governo, facilitando seus gastos. Registre-se, todavia, que grande parte dos lucros dos Fundos de Pensão é resultante da variação dos preços das ações, que sobem e descem. Logo, não é um “lucro certo”. Sirva de exemplo o lucro do BB/2008, R$8,3 bilhões dos quais R$5,2 bilhões foram apropriados da PREVI, Fundo de Pensão dos Funcionários do BB.
A propósito, cabe registrar outro malabarismo tentado pelo PL 77 (Aloísio Mercadante), proibindo que associados dos Fundos de Pensão participem dos Conselhos das respectivas entidades. Teria este o interesse de evitar objeções ou denúncias dessas intenções político/governamentais, não obstante boa parte dos gestores já sejam indicados ou influenciados politicamente? É justo lembrar que os Fundos de Pensão, instituições para o longo prazo, resultaram, também, da grande contribuição salarial dos associados por longos anos. Interferências inadequadas na gestão podem afetar o futuro dessas instituições.
4. EXCLUSÃO DA PETROBRÁS DAS CONTAS PÚBLICAS – O provável interesse seria reduzir (ou não elevar muito) a relação Gastos Públicos/PIB, que já assumiu desconfortável posição.
5. DEMISSÃO DE EXECUTIVOS DE ESTATAIS QUE NÃO SE SUBORDINEM ÀS INTERFERÊNCIAS INDEVIDAS – Entre eles estão: o Presidente do Banco do Brasil, que estava demorando a reduzir as taxas de juros. Indevidas interferências desse tipo não se coadunam com os padrões do “Novo Mercado” nem com a transparência. Da mesma forma, foi demitida Lina Vieira, da Receita Federal, que estava modernizando o sistema fiscalizador e teria foco nos grandes sonegadores.
6. REDUÇÃO DO DESEMPREGO: INFORMAIS – Considera emprego gerado a simples formalização autorizada aos pescadores e artesãos. A lei é favorável. O uso estatístico é que é inadequado. Não obstante, a queda do desemprego não tem apresentado resultados significativos.
7. INDEPENDÊNCIA DOS PODERES – O Presidente, ao indicar para Ministro do Supremo Tribunal Federal o advogado de campanha do partido, ex-assessor de J. Dirceu, e condenado em dois processos (em recurso), deixa vulnerável a independência dos poderes.
8. O PREÇO E A CONFUSÃO DA IMAGEM – O grande gasto feito com agentes publicitários para construir a “imagem do Brasil”, plenamente justificável, foi direcionado para a “imagem pessoal”, tornando o processo mais fácil mas mais vulnerável e inadequado.
9. LEI DOS DIREITOS HUMANOS - A inserção injustificada de interesses, destacando-se a de restrição da liberdade de imprensa, oportuniza o atraso na aprovação do conveniente.
10. OBRAS PÚBLICAS: IRREGULARIDADES – Desconsideração das irregularidades constatadas pelo Tribunal de Contas da União em obras da Petrobrás.
Considerando o potencial econômico do Brasil e as favoráveis condições do contexto econômico da última década, é, no mínimo, elementar que se o País tivesse sido gerido sob o conceito da “geoestratégia”, teríamos galgado significativo posicionamento entre os países, enriquecido a população interna, não com esmola mas com oportunidade de auto-realização.
Isto seria uma decorrência natural da adequação do sistema educacional, da tecnologia, da desoneração tributária que facilitaria o aumento da competitividade das empresas e, daí, a geração de empregos. Seríamos fornecedores competitivos de produtos de maior valor agregado e não apenas de produtos agrícolas e minerais, que parece termos pressa em exauri-los. Esta não é a realidade conveniente, que é bem denunciada pelos números da economia (PIB, balança comercial e de transações correntes, carga tributária e gastos governamentais em relação ao PIB, posicionamento competitivo, IDH (este com alguma melhora) e tantos outros indicadores. A adequação depende muito da qualificação da gestão governamental, aqui incluídas competência, ética e responsabilidade.
Feitas essas ponderações, voltando ao tema, considerando o ato de prever o futuro da realidade econômica brasileira, antes um exercício de fundamentação técnica, passou a ser predominantemente intuitiva, o que foi acentuado não só pela complexidade da globalização mas, principalmente, pelos “malabarismos e jogadas” político-governamentais. Se isto continuar e evoluir, é bem possível que os economistas precisem especializar-se também em cartomancia, tarô e outras artes, visto que os fatos e os números são repetida e artificialmente manipulados, dificultando a percepção da realidade. Felizmente temos acertados as previsões, porém, com forte dosagem intuitiva e algum subsídio dos dados apresentados.
A pergunta é: Até quando este espetáculo circense irá continuar?
A resposta não é fácil, diante da crescente contaminação da corrupção nas fontes de poder e da ausência da “ Comunidade Cívica” na população, instituição de vital importância à sociedade. Esta, no entanto, é rara em comunidades acomodadas, passivas, comprometidas e desintegradas. A influência cultural é significativa.
Em muitos países, percebida a corrupção, o “KÔ RUPT” é identificado e punido, muitas vezes até se suicidam. No Brasil, além de nada pagar, o prisioneiro está sendo contemplado com razoável salário para a família, segundo informações que circularam na imprensa.
Este artigo não tem a preocupação de justificar os erros de previsão que, com freqüência ocorrem, nem de condenar inocentes. Se Você não tem culpa, não se preocupe. Você não está sendo cobrado. Tem, antes, o reconhecimento da importância das instituições profissionais para que este País que tanto amamos escolha uma rota mais adequada ao sucesso, tornando-se o “O PAIS DO PRESENTE E DO FUTURO” , não apenas do “ Futuro Inatingível”.
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(*) Economista, Consultor Empresarial de Alta Gestão
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